Mostrando postagens com marcador Pedestre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedestre. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de junho de 2017

“COMO TORNAR AS RUAS SEGURAS PARA PEDESTRES. UMA CONVERSA COM A URBANISTA NEOZELANDESA SKYE DUNCAN” 21/05/2017 Deixe um comentário Publicado originalmente em: Caminhadas Urbanas, Estadão Autor: Mauro Calliari Data: 05/05/2017 A diretora da Global Designing Cities Initiative, Skye Duncan, anda pelo mundo pensando em como melhorar a experiência de andar pelas cidades. Ela esteve em São Paulo em 5 de maio para um seminário organizado pela Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito: Como tornar as ruas seguras para pedestres. Conversei com ela depois de sua palestra sobre ruas, calçadas e cidades. Skye gosta de caminhar na avenida à beira mar de Wellington, cidade de seu país natal, a Nova Zelândia, mas também encara os becos de Melbourne, na Austrália, e nas ruazinhas de Roma, quando quer “se perder na cidade”. O papel das ruas na cidade contemporânea. As ruas ocupam a maior parte do espaço público das cidades. Elas servem para nos movermos para lá e para cá, claro. Mas são muito mais que isso. São também o lugar onde as crianças brincam, onde adultos encontram vizinhos, onde se celebra em bares, onde se vende mercadorias, onde se experimenta a cidade. É preciso levar em consideração isso tudo para restaurar o papel da nossas ruas. Para desenhar uma rua, é preciso pensar no ponto de vista das pessoas e no lugar. Como podemos diminuir o número de atropelamentos e mortes no trânsito? A solução passa por duas ações básicas: Diminuir a velocidade dos carros e melhorar o desenho das ruas, das calçadas e travessias. Tudo o mais deriva daí. Por que há tanta gente falando em segurança? Existe um “Espírito do tempo”? As mudanças para tornar as cidades mais seguras vêm desde a década de 60, em lugares que hoje são exemplos, como Copenhagen, mas de fato nesses últimos anos as iniciativas estão se proliferando e a quantidade de informações aumentou. O que acontece é que as cidades chegam ao fundo do poço – mortes no trânsito, tempo gasto em congestionamentos e isso faz com que se pense em soluções diferentes. Além disso, as cidades não podem mais não ter planos claros para reduzir a poluição, aumentar o verde, melhorar a andabilidade. Elas competem entre si para atrair e manter moradores e sua vitalidade econômica. Como convencer pessoas que vale a pena trocar o carro pelo transporte público. Não há caminho sem conflito. Em Nova York, quando a secretária de transporte decidiu fechar a Times Square acharam que ela estava louca. Mas deu certo e hoje a praça fechada para carros é um paradigma seguido por muitas cidades ao redor do mundo. As cidades de países desenvolvidos estão dificultando a vida de quem vai de carro ao centro. Mas, por outro lado, quanto mais fácil for andar, pedalar e o transporte público, maior o número de pessoas que decidirão não pegar o carro. Andar como fruição ou como necessidade. Mesmo que o andar seja um meio de transporte, é possível combinar isso com uma boa experiência da cidade. Se você puder escolher o caminho a cada vez, se puder ter diferentes tipos de ruas e de construções, isso torna o trajeto mais agradável e pode até se transformar num passeio prazeroso. Antes e depois. Ruas que melhoram a experiência do pedestre nos Estados Unidos. “Andar transcende a política partidária. É da vida de pessoas que estamos falando”. Normalmente, o papel dos prefeitos é justamente apontar um caminho para melhorar a cidade. Mas, mesmo que haja alguma falta de clareza, estamos falando de salvar vidas. Se nós desenharmos uma cidade que facilite a decisão de andar a pé ou de bicicleta, o prefeito fará parte desse movimento, naturalmente. Dá trabalho fazer o engajamento de todos. É preciso vontade, expertise, informação e muitos dados. Mas vale a pena. Com legitimidade e discussão anterior, “os projetos são cumpridos com muito mais facilidade no longo prazo”. Quem pensa no pedestre nos órgãos de trânsito? Cada cidade tem uma estrutura , mas o importante é que exista um grupo com diversidade ajudando a tomar as decisões. Além dos engenheiros, é aconselhável que os órgãos de trânsito tenham especialistas em acessibilidade, pedestres, ciclistas e crianças, ambientalistas, etc. Conselhos de moradores servem para dar consistência aos projetos e ajudar a pensar em questões que só quem conhece a região consegue. Trãnsito Induzido. O conceito é conhecido, mas a gente sempre desconfia. “Não importa o quanto se aumente no espaço para carros. Logo, ele estará tomado e o congestionamento volta”. A importância de medir. “What you don´t measure, you don´t execute”. A frase de Bloomberg, comum no ambiente de negócios, é válida para o poder público. É fácil pensar em exemplos aqui. Quando as ciclovias foram implantadas, algumas pessoas reclamaram de que o movimento de lojas iria cair. Ninguém mediu as vendas antes e depois. O resultado é que não sabemos se houve ou não variação. Como tomar decisões assim? Eficiência no transporte. O paradigma mudou. Não devemos mais pensar em quantos carros passam por tal lugar por hora, mas sim quantas pessoas. Isso inclui pedestres e passageiros em ônibus e muda dramaticamente a clareza no que deve ser prioridade. Visão Zero. Visão Zero é uma idéia que muda o jeito de ver o trânsito. No momento em que uma cidade decide que morrer no trânsito não é aceitável, o que era custo passa a ser investimento. As prioridades ficam mais claras. EVENTO COMO TORNAR AS RUAS SEGURAS PARA PEDESTRES Mobilab – São Paulo, SP 05 de maio de 2017, 08h30-12h Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito Outras apresentações mostradas durante o evento e materiais utilizados na oficina da tarde: Apresentação Marta Obelheiro, WRI Brasil Cidades Sustentáveis Apresentação Skye Duncan, NACTO-GDCI Apresentação Ankita Chachra, NACTO-GDCI Manual de Desenho de Cidades Seguras, WRI Brasil Cidades Sustentáveis Materiais da oficina da tarde Ima


Publicado originalmente emCaminhadas Urbanas, Estadão
Autor: Mauro Calliari
Data: 05/05/2017
https://cidadeape.org/
A diretora da Global Designing Cities Initiative, Skye Duncan, anda pelo mundo pensando em como melhorar a experiência de andar pelas cidades. Ela esteve em São Paulo em 5 de maio para um seminário organizado pela Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito: Como tornar as ruas seguras para pedestres.
Conversei com ela depois de sua palestra sobre ruas, calçadas e cidades. Skye gosta de caminhar na avenida à beira mar de Wellington, cidade de seu país natal, a Nova Zelândia, mas também encara os becos de Melbourne, na Austrália, e nas ruazinhas de Roma, quando quer “se perder na cidade”.
O papel das ruas na cidade contemporânea.
As ruas ocupam a maior parte do espaço público das cidades. Elas servem para nos movermos para lá e para cá, claro. Mas são muito mais que isso.  São também o lugar onde as crianças brincam, onde adultos encontram vizinhos, onde se celebra em bares, onde se vende mercadorias, onde se experimenta a cidade.  É preciso levar em consideração isso tudo para restaurar o papel da nossas ruas. Para desenhar uma rua, é preciso pensar no ponto de vista das pessoas e no lugar.
Como podemos diminuir o número de atropelamentos e mortes no trânsito? 
A solução passa por duas ações básicas: Diminuir a velocidade dos carros e melhorar o desenho das ruas, das calçadas e travessias. Tudo o mais deriva daí.
Por que há tanta gente falando em segurança? Existe um “Espírito do tempo”?
As mudanças para tornar as cidades mais seguras vêm desde a década de 60, em lugares que hoje são exemplos, como Copenhagen, mas de fato nesses últimos anos as iniciativas estão se proliferando e a quantidade de informações aumentou. O que acontece é que as cidades chegam ao fundo do poço – mortes no trânsito, tempo gasto em congestionamentos e isso faz com que se pense em soluções diferentes. Além disso, as cidades não podem mais não ter planos claros para reduzir a poluição, aumentar o verde, melhorar a andabilidade. Elas competem entre si para atrair e manter moradores e sua vitalidade econômica.
Como convencer pessoas que vale a pena trocar o carro pelo transporte público.
Não há caminho sem conflito. Em Nova York, quando a secretária de transporte decidiu fechar a Times Square acharam que ela estava louca. Mas deu certo e hoje a praça fechada para carros é um paradigma seguido por muitas cidades ao redor do mundo.
As cidades de países desenvolvidos estão dificultando a vida de quem vai de carro ao centro. Mas, por outro lado, quanto mais fácil for andar, pedalar e o transporte público, maior o número de pessoas que decidirão não pegar o carro.
Andar como fruição ou como necessidade.
Mesmo que o andar seja um meio de transporte, é possível combinar isso com uma boa experiência da cidade. Se você puder escolher o caminho a cada vez, se puder ter diferentes tipos de ruas e de construções, isso torna o trajeto mais agradável e pode até se transformar num passeio prazeroso.

Antes e depois. Ruas que melhoram a experiência do pedestre nos Estados Unidos.
Andar transcende a política partidária. É da vida de pessoas que estamos falando”. 
Normalmente, o papel dos prefeitos é justamente apontar um caminho para melhorar a cidade. Mas, mesmo que haja alguma falta de clareza, estamos falando de salvar vidas. Se nós desenharmos uma cidade que facilite a decisão de andar a pé ou de bicicleta, o prefeito fará parte desse movimento, naturalmente. Dá trabalho fazer o engajamento de todos. É preciso vontade, expertise, informação e muitos dados. Mas vale a pena. Com legitimidade e discussão anterior, “os projetos são cumpridos com muito mais facilidade no longo prazo”.
Quem pensa no pedestre nos órgãos de trânsito?
Cada cidade tem uma estrutura , mas o importante é que exista um grupo com diversidade ajudando a tomar as decisões. Além dos engenheiros, é aconselhável que os órgãos de trânsito tenham especialistas em acessibilidade, pedestres, ciclistas e crianças, ambientalistas, etc. Conselhos de moradores servem para dar consistência aos projetos e ajudar a pensar em questões que só quem conhece a região consegue.
Trãnsito Induzido.
O conceito é conhecido, mas a gente sempre desconfia. “Não importa o quanto se aumente no espaço para carros. Logo, ele estará tomado e o congestionamento volta”.
A importância de medir.
“What you don´t measure, you don´t execute”. A frase de Bloomberg, comum no ambiente de negócios, é válida para o poder público. É fácil pensar em exemplos aqui. Quando as ciclovias foram implantadas, algumas pessoas reclamaram de que o movimento de lojas iria cair. Ninguém mediu as vendas antes e depois. O resultado é que não sabemos se houve ou não variação. Como tomar decisões assim?
Eficiência no transporte.
O paradigma mudou. Não devemos mais pensar em quantos carros passam por tal lugar por hora, mas sim quantas pessoas. Isso inclui pedestres e passageiros em ônibus e muda dramaticamente a clareza no que deve ser prioridade.
Visão Zero.
Visão Zero é uma idéia que muda o jeito de ver o trânsito.  No momento em que uma cidade decide que morrer no trânsito não é aceitável, o que era custo passa a ser investimento. As prioridades ficam mais claras.

EVENTO COMO TORNAR AS RUAS SEGURAS PARA PEDESTRES

Mobilab – São Paulo, SP
05 de maio de 2017, 08h30-12h
Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito
Outras apresentações mostradas durante o evento e materiais utilizados na oficina da tarde:

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sugestões para 12 meses de Maio Amarelo

Sugestões para 12 meses de Maio Amarelo

08/05/2017  - Meli Malatesta

Assim como o Outubro Rosa e a prevenção do câncer de mama, o Novembro Azul e a prevenção do câncer de próstata, o Maio Amarelo é uma campanha cuja finalidade é chamar a atenção para a Segurança de Trânsito.  Maio foi o mês escolhido, e a cor amarela a definida para ressaltar que a situação não está fácil, já que é a cor que remete à luz amarela dos semáforos, como a lembrar que a segurança de trânsito está em estado de atenção no país, o quarto da América Latina em mortes por acidentes de trânsito que matam mais de 40 mil pessoas por ano.   
Direcionando nosso foco para São Paulo, a maior cidade brasileira, de acordo com os dados da Companhia de Engenharia de Tráfego, 24.260 acidentes de trânsito fizeram vítimas no ano de 2015, o último ano com dados divulgados até o momento. Deste total quase mil pessoas – 992 mais exatamente –, perderam a vida nas vias paulistanas: quase 3 pessoas por dia!!!  A maioria, mais exatamente 419, era de pedestres mortos nos 409 atropelamentos registrados.  Estes números aterradores apontam que além de ser o usuário mais vitimizado no trânsito, há casos em que um mesmo atropelamento consegue matar mais de uma pessoa!!!  
                                   Idosos tentando atravessar na faixa de pedestres   
                                   Foto: Exame/Editora Abril
Enquanto aguardamos a divulgação dos dados  de 2016, pode ser percebido que o ano de 2017 não começa muito promissor, quando se pode constatar que no mês de março deste ano dobraram os óbitos por atropelamentos, com o registro de  43  mortes contra 22 em março do ano passado. 
É com este cenário desfavorável que a Campanha Maio Amarelo é iniciada aqui em São Paulo pela Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte.   Além do símbolo do laço amarelo, a campanha começa com algumas novidades para quem caminha: 25% a mais de tempo para a travessia de pedestres em alguns semáforos paulistanos.  A princípio a medida parece ser promissora, porque é unânime a sensação de insegurança e frustração provocada pelo longo tempo de espera e a pressa na travessia, pelo pouco tempo a ela dedicado.  Entretanto, ao refletirmos melhor o que representa estes 25% a mais no tempo de travessia dos semáforos paulistanos, só no resta concluir que o benefício representa, na grande maioria dos casos, poucos segundos a mais para o pedestre, e assim obviamente imperceptível para a maioria dos caminhantes. Isso porque continuará sendo difícil e exasperante atravessar nos tempos apertados com o homenzinho vermelho do foco piscando após breves segundos de homenzinho verde.  Quando reclamamos, nos informam que isso é norma e, portanto, inalterável, como se essa “norma” fosse eterna e “imexível”,
Realmente não conheço pessoa, salvo quem fez a norma, obviamente, que concorde com essa  forma de sinalizar a vez do pedestre  atravessar. Principalmente pessoas que necessitam de maior atenção, como idosos, cadeirantes, portadores de muletas e bengalas, mães com carrinhos de bebê, que já sofrem com nossas calçadas e perdem totalmente a coragem de sair de casa.  Assim, a importante Campanha Maio Amarelo poderia cravar sua existência revendo esta forma injusta de programar o semáforo, beneficiando definitivamente os que não estão no interior dos veículos, tornando o momento da travessia uma ação mais segura, eficiente, amigável e tranquila.
Outra ação igualmente importante seria intensificar os investimentos na manutenção da rede de calçadas da cidade, resgatando os espaços invadidos irregularmente pelos lotes privados.  
Cadeirantes e idosa utilizam ciclofaixas quando as calçadas não são adequadas a elas
Fotos: Arquivo pessoal e Pedro Borelli
Também seria oportuno requalificar a rede de ciclovias e ciclofaixas sem suprimir nenhuma, lembrando que elas também são úteis para os cadeirantes. Há um decreto municipal que autoriza seu uso para idosos e cadeirantes (Decreto Municipal 55.790/2014), quando andar nas calçadas se torna inviável, o que ainda é bem frequente por aqui .
Para concluir, um Maio Amarelo vitorioso e inesquecível não deixaria de incluir a desastrosa revisão do aumento das velocidades nas Marginais Tietê e Pinheiros, frente às notícias diárias do aumento do número de acidentes com vítimas e mortes, e dos atendimentos do SAMU.  Tenho certeza que para as famílias das vítimas seria um conforto, e para as famílias dos que ainda não foram vítimas também.
Com ações que primam pela preservação da vida de todos nós, que cotidianamente temos que sair de casa para chegar a algum lugar a pé, de bicicleta, de ônibus, metrô, trem, caminhão e carro coletivo, moto, carro, não importa o modo, afinal, todos os meses são e serão “maio-amarelo”.
Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta) - Arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestrado em Transporte a Pé na FAUUSP e doutorado em Transporte Cicloviário pela FAUUSP; presidente da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Mobilidade da ANTP. Escreve também para o Blog "Pé de Igualdade", do site Mobilize

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Semáforos de SP penalizam população idosa

Tempo de travessia não é suficiente para idosos atravessarem com calma e segurança Conexão Planeta

Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP mostra que a velocidade de travessia de pedestres utilizada para definir tempo semafórico na capital é rápida demais para idosos, maiores vítimas do trânsito
ALEXANDRE PELEGI
Diário do Transporte
Noticiamos aqui (https://diariodotransporte.com.br/2017/05/03/prefeitura-promete-aumentar-tempo-semaforico-para-travessia/) que diante do aumento das mortes de pedestres em SP, a prefeitura prometeu ontem (3 de maio), ao lançar a campanha Maio Amarelo, aumentar o tempo semafórico para a travessia.
O programa lançado pelo secretário Sergio Avelleda anunciou, dentre outras medias pontuais, a intenção de estender em 20% o tempo de travessia para pedestres programados nos semáforos da cidade. Aumentar o tempo semafórico em 20% significaria, por exemplo, que atravessar as 4 faixas da avenida Angélica, hoje com 5 segundos de sinal verde, passaria a ter o expressivo ganho de um segundo!
Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP vem mostrar o quão grave é o problema da travessia em São Paulo. O estudo constatou que a velocidade média de pedestres paulistanos acima dos 60 anos, ao cruzar uma rua, é de 2,7 km /hora. Para se entender o que isso significa, os sinais de travessia da capital funcionam com base em 4,3 km/hora, ou estão sincronizados para que o pedestre percorra 1 metro de via a cada 12 segundos.
A pesquisa foi feita com apoio da Fapesp, do qual participaram 1.161 idosos, a maioria deles com dificuldades em alcançar a calçada oposta antes do semáforo entrar no vermelho.
A professora Etienne Duim, autora do trabalho publicado no Journal of Transport & Health, afirma que além de a velocidade não ser a adequada, é preciso lembrar que o aumento da população idosa no país (e em São Paulo) é crescente e inexorável.
O pesquisador José Leopoldo Antunes, que também atuou na pesquisa, aponta outro problema: tempos semafóricos curtos desestimulam a caminhada dos idosos. Muita gente de terceira idade prefere ficar presa em casa a ser atropelada por motoristas irresponsáveis nas ruas da capital. Menos caminhadas, mais problemas de saúde…
Idosos: mais vulneráveis são as maiores vítimas do trânsito
Análise do Observatório Paulista de Trânsito (OPT), do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran.SP), divulgada em outubro de 2016 com base nos dados do DataSUS (2014 para óbitos; 2015 para internações), apontava que os atropelamentos são metade das ocorrências dos óbitos de idosos no trânsito paulista (49,2%). Em seguida, aparecem os acidentes como ocupante de veículo (19,9%).
Aumentar o tempo semafórico em 20%, portanto, pode até ser um bom começo. Mas ainda está longe, muito longe de privilegiar a quem realmente importa na cidade: as pessoas.
O tempo semafórico curto para o pedestre, um atraso parido e gestado na engenharia de tráfego dos anos 70 que privilegiava a fluidez de veículos em detrimento da fluidez de pessoas, é o melhor indicador para saber o quanto uma cidade se importa com seus cidadãos. Quanto maior for o tempo para a travessia, maior será a possibilidade das pessoas caminharem e se apropriarem de suas cidades.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

terça-feira, 7 de março de 2017

Bonde a Pé: de volta ao começo de tudo

 - ANTP

O Instituto Corrida Amiga, que integra a Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP, vai participar de nosso 21º Congresso de várias maneiras, mas uma será inovadora: o Bonde a Pé. A ideia, inicialmente, parece simples: partir a pé de um terminal de transporte público até o local do evento, o que poderá ser mais rápido, barato, saudável e sustentável.  Estamos falando em caminhar do Terminal Barra Funda até o Centro de Eventos Pro Magno, uma distância aproximada de 2 quilômetros, e da parada de ônibus localizada na avenida Ordem e Progresso, distante cerca de 0,5 km.
Como uma atividade integrada ao Congresso a iniciativa é muito mais do que aparenta ser: a proposta sugere uma atividade pedagógica de cidadania, muito mais do que apenas mais uma forma de se chegar até o local.
O Bonde a Pé realiza na prática o que muitos coletivos que atuam pelos direitos do pedestre vêm alertando há muitos anos: a discussão da mobilidade na cidade deve ser contínua e acontecer em todos os momentos e situações em que estamos fora de casa, vivendo na cidade, nas calçadas, atravessando (ou querendo atravessar) as ruas, espremidos no metrô ou em trens suburbanos, chacoalhando em ônibus, parados em abrigos de ônibus sem saber qual linha passa ali, encapsulados e presos em automóveis.
O ato de caminhar, além de prazeroso (sim, ele pode ser!), deve ser compreendido como uma maneira prática de reivindicarmos de volta o uso da cidade. Um uso que nós mesmos (e as gerações que nos precederam) cedemos sem resistências ou quase nenhuma restrição a uma urbanização caótica e seletiva, que apartou o emprego do trabalho mediante a venda do sonho do automóvel como o grande redutor de tempos e distâncias.
Essa situação vem se invertendo há anos. Um estudo global realizado por uma montadora de veículos mapeou o comportamento de usuários de automóveis de sete países europeus, China, Japão, Argentina e Brasil. O resultado, divulgado nesta semana, é assustador: o brasileiro passa quatro anos e 11 meses de sua vida dentro do automóvel, ou, quando comparados a outros países,  somos o povo que gasta mais tempo no carro. Passamos 7,5% de nossa existência dentro de uma cápsula metálica, desconectados da vida externa, apartados da vida, de outras pessoas, de outras realidades.
Se antes a naturalidade da caminhada nos permitia observar paisagens e cenários, dando-nos uma sensação forte de pertencimento (esta é a minha cidade, minha rua, minha praça), hoje caminhar nos dá outra dimensão: a de que é preciso e urgente voltar a ter a cidade novamente à nossa disposição. Para isso é preciso humanizá-la, única maneira de nos sentirmos cidadãos, muito mais do que simples residentes.
Caminhar nos permite fazer perguntas que, até outro dia, não estavam em nosso horizonte de preocupações. O crescimento exponencial dos congestionamentos, com todas as nefastas consequências que causam às nossas vidas (e à vida das cidades), nos levou a voltar nossos olhares para outras direções. E isso nos impele a questionar fatos que, até outro dia, faziam parte de nossas vidas: por que meus filhos não podem ir à escola a pé ou de bicicleta? Além da insegurança pública, qual o tamanho da culpa da violência do trânsito? Por que deixamos que a calçada se tornasse apenas um ornamento externo à nossa residência, um simples trecho de chegada às garagens? Por que paramos de caminhar, de nos encontrar em locais públicos? Por que as praças se tornaram locais desertos e mal iluminados? Por que não temos áreas públicas com locais para conversar com nossos vizinhos, para nos encontrar com amigos e fazer novas amizades?
Caminhar a partir de um importante terminal de transporte público como a Barra Funda, em São Paulo, que congrega ônibus, metrô e trens, nos dá a dimensão do enorme problema que criamos para nossas cidades: não há como sair de locais assim simplesmente caminhando. São locais enormes e gigantescos, espaços que, mesmo sem o querer, tratam mal o cidadão/passageiro, que muitas vezes quer ser apenas cidadão, não quer ‘passar’ para lugar algum. São pessoas que querem simplesmente resolver um problema sem precisar percorrer longas distâncias.
Muitas pessoas acabam se utilizando do transporte público para marcar uma consulta com um médico da rede pública; para pedir uma segunda via de um documento, pagar uma conta, resolver questões municipais, tendo que para isso de ir a prédios gigantescos e burocratizados no centro das cidades. Por que não conseguimos tornar os terminais públicos em locais de prestação de serviços ao cidadão, ao invés de um amplo centro de alimentação e compras diversas, uma miniatura de um shopping center?
O que a atividade do Bonde propõe é simples e ao mesmo tempo desafiador: no caminho ao Congresso poderemos desnudar um pequenino trecho de nossa cidade, observando as condições das calçadas, os tempos semafóricos, os espaços para bicicletas, para crianças, para mulheres grávidas, para cadeirantes. Quem optar por caminhar, que seja apenas por um dia, poderá descobrir se é possível andar na sombra, se temos árvores ou locais de descanso, se temos outras formas de vida além dos veículos motorizados que passam pelo asfalto.
Diante da imobilidade provocada pelos congestionamentos os fabricantes de veículos estão preocupados em produzir automóveis que sejam vistos como uma extensão de nossas casas e locais de trabalho. A proposta do Bonde a Pé é o oposto: saia da cápsula e venha viver e reconquistar sua cidade. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Instituto Corrida Amiga promove a 1ª “Formação Corrida Amiga”, o FoCA

 ANTP


Você que quer vestir a camisa do transporte a pé não pode perder essa oportunidade. Trataremos das diversas perspectivas de atuação da Corrida Amiga de um modo bem dinâmico, divertido e mostraremos na prática como a gente faz. Nosso anseio é que mais e mais pessoas descubram a intensidade de ser "Corrida Amiga" e, principalmente, somem e potencializem a atuação da organização. Quer aprender? Ensinar? Partilhar sonhos? Ajudar este lindo movimento que cresce cada dia mais? Então, seja parte da Formação Corrida Amiga. 
Uma pessoa formada pelo FOCA estará habilitada a: 
- usar a mobilidade a pé (caminhar/correr) nos seus deslocamentos diários; 
- engajar mais e mais pessoas a calçar os tênis, ou seja, promover a mobilidade a pé; 
- atuar mais ativamente em prol de melhores condições para quem anda a pé nas cidades; 
- apoiar o movimento pela mobilidade a pé conforme suas possibilidades e demandas. 
Quando? - 26/11 
Horário? - das 8h30 às 13h 
Local? - Rua Professor Rubião Meira, 59, Pinheiros, São Paulo (próximo ao Metrô Sumaré) 

***Evento Gratuito!!! 
Inscrições aqui: http://bit.ly/FoCAEuVou. 
Interessados, entrem em contato. 
Informações: 
Facebook: https://www.facebook.com/Corridaamiga 
Evento Facebook: https://www.facebook.com/events/1824021024478716/ 
Site: www.corridaamiga.org 
Contato: contato@corridaamiga.org 
Telefone: (11) 9 4155 5993 / (11) 9 8221 2131

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Berlim quer transformar sua principal avenida em calçadão

16
Nova gestão pretende tirar carros da principal via
Nova gestão pretende tirar carros da principal via de Berlim
créditos: TripAdvisor
 Na via fechada a carros só ônibus e táxis circularão e pedestres e ciclistas terão prioridade. Proposta é fruto de acordo da coalizão que governará a capital alemã
Dois meses após as eleições em Berlim, em meados de setembro, três legendas – Partido Social-Democrata (SPD), Partido Verde e A Esquerda – anunciaram nesta semana o acordo para formar uma coalizão.

O processo de negociações foi, e costuma ser, demorado, afinal, tudo é discutido minuciosamente para evitar lacunas que podem gerar conflitos durante o governo. No modelo alemão, a formação do governo leva meses, e as futuras medidas são detalhadas minimamente, sem deixar espaço para uma batalha de egos.

Em Berlim, por exemplo, a negociação gerou um acordo de 270 páginas. Enquanto os partidos estavam reunidos, a imprensa local revelou algumas das propostas acertadas pelo novo governo.

A que mais surpreendeu e causou polêmica é a possível transformação da avenida mais famosa da cidade, a Unter den Linden – aquela que começa no Portão de Brandemburgo e segue até a ilha dos museus – num calçadão.

A proposta prevê o fechamento da avenida para o trânsito de carros, apenas ônibus do transporte coletivo e táxis poderão circular nela. Além de pedestres, ciclistas terão a preferência de uso deste novo calçadão.

Eu, como ciclista, adorei a ideia. Afinal, é um inferno cruzar de bicicleta a cidade de oeste a leste na região central. Atualmente não há nenhuma rua ou ciclovia que permite uma travessia segura no centro. Bicicletas são obrigadas a disputar espaços com carros, e muitas vezes acabam colocando-se ou sendo colocadas em situações de risco. A criação de uma via exclusiva neste eixo central pode incentivar o uso da bicicleta e facilitar a vida de milhões de ciclistas que precisam se deslocar na região. 

Para aqueles que pensam nos motoristas e como eles ficarão sem poder usar a avenida: o novo governo argumenta que na região há grandes vias que podem absorver esse trânsito. E, realmente, para carros não faltam opções de tráfego no centro. Para mim, a ideia de fechar a avenida mostra que a nova coalizão está tentando, ou pelo menos tem vontade, de fazer de Berlim uma cidade melhor para todos. Afinal, quem disse que donos de carros têm mais direitos de usufruir das estruturas das cidades do que pedestres e ciclistas?

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Acessibilidade nas calçadas é debatida pela ANTP, Rádio ABC e Diário do Transporte

Ônibus é novo e tem elevador na porta traseira, portanto, com um item de acessibilidade. Mas calçada do ponto está em péssimo estado, com lixo, buraco e mato alto na Rua Jabaquara, no bairro Paraíso, em Santo André – Foto: Adamo Bazani.Ônibus é novo e tem elevador na porta traseira, portanto, com um item de acessibilidade. Mas calçada do ponto está em péssimo estado, com lixo, buraco e mato alto na Rua Jabaquara, no bairro Paraíso, em Santo André – Foto: Adamo Bazani.

Especialista aponta exemplos de como o poder público pode contribuir para o melhor deslocamento do cidadão apesar de as calçadas serem de responsabilidade dos donos de imóveis
Diário do Transporte
ADAMO BAZANI
Se deslocar nas cidades, seja na região central e principalmente nas periferias, é uma ação praticamente impossível para quem possui algum tipo de limitação.
O motivo é a baixa qualidade das calçadas. Muitos pensam que mobilidade urbana se trata apenas do ônibus, do trem e do metrô, mas os deslocamentos devem ser alvos da atenção do poder público em toda a extensão do trajeto do cidadão, que começa justamente na calçada de casa.
O assunto, entretanto, parece não ganhar a devida atenção dos atuais prefeitos e foi muito pouco debatido nas eleições municipais. Afinal, prometer obras mirabolantes como monotrilhos, viadutos e vias largas pode dar “Ibope”, agora uma política de calçadas pode não ser tão glamourosa, mas é essencial para a cidadania na mobilidade urbana.
Nesta segunda-feira, 14 de novembro de 2016, a ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, por meio do seu superintendente Luiz Carlos Mantovani Néspoli, a Rádio ABC e o Diário do Transporte discutiram o tema.
A conversa foi no Jornal ABC, com a apresentação de Tiago Oliveira, produção de Janete Ogawa e participação de Ádamo Bazani.
Néspoli afirmou que as calçadas são de responsabilidade dos proprietários dos imóveis, com exceção das áreas públicas, mas mesmo assim o poder público pode auxiliar na padronização dos espaços e criar políticas públicas mais eficientes para o tema.
O especialista também afirmou que um dos maiores problemas em relação ao calçamento não é apenas a situação das irregularidades e dos buracos, mas no que ele chamou do próprio “DNA da calçada”
“O problema da situação das calçadas é que elas já nascem muito mal feitas, já nascem erradas. Um dos motivos é são executadas por múltiplos proprietários e nem sempre se seguem os requisitos mínimos de acessibilidade” – disse
Apesar de a responsabilidade na maior parte das calçadas ser do proprietário do imóvel, o poder público pode auxiliar muito mais do que fazendo a simples fiscalização que hoje, segundo Néspoli, é precária. Ele cita, por exemplo, o programa de calçadas de Camboriú, em Santa Catarina, que determinou um novo padrão a ser aplicado dentro dos próximos 10 anos. Se os proprietários não seguirem as normas, a prefeitura faz a calçada e depois manda a conta para o dono do imóvel.
Em São José dos Campos, no interior de São Paulo, também segundo Néspoli, há outra iniciativa interessante: um programa de convencimento e convocação da população. Foram treinados calceteiros e pedreiros em geral e o padrão estabelecido é eficiente, acessível e simples, com custo de R$ 70 o metro quadrado.
Néspoli também disse que podem ser usadas regras de compensação, como pelo IPTU, para quem seguir as normas de acessibilidade para melhorar o ir e vir das pessoas com o objetivo de incentivar a readequação das calçadas.
O especialista também afirmou que é interessante haver programas de longo prazo, que pensem até 20 anos para reestruturar todos os espaços de calçamento. Dentro deste período deve haver prioridades como ruas com aclives e acessos aos transportes, como imediações de corredores de ônibus, faixas exclusivas e estações de trem e metrô.
“Fizemos uma pesquisa pela ANTP e os usuários de transporte público disseram que o pior trecho de suas viagens não é em relação à demora ou lotação dos ônibus ou trens, mas é o início da viagem, ou seja, a calçada, o acesso ao meio de transporte. Existem pessoas que precisam sair de madrugada de casa , ainda está escuro, e a calçada além de buracos,  têm lixo acumulado, mato e outros problemas que comprometem a segurança ao caminhar” –complementou
Ouça a entrevista na íntegra neste link:
Tocador de áudio

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Buenos Aires pretende ampliar restrição ao automóvel

sta_fe

Medida quer beneficiar o transporte coletivo
RENATO LOBO
Projeto da Prefeitura de Buenos Aires promete triplicar a restrição a automóveis no centro da capital da Argentina, em um raio que abrange 315 quadras.
A restrição seria das 9 da manhã às 18 horas, onde apenas veículos de moradores poderiam circular. Atualmente já existe proibição em cerca de 86 quadras.
A medida tem como objetivo estimular o uso do transporte coletivo e da bicicleta, e uma área que circula 50 mil pessoas, e em contra partida reduzir poluentes atmosféricos e sonoros. Sobre o transporte, a ideia é ajudar na fluidez dos ônibus que cortam a região.
“Acreditamos numa cidade em escala humana: com menos carros particulares, mais espaço para os pedestres e na qual as opções de mobilidade sejam a bicicleta e o transporte público”, disse a deputada Cristina García, que apresentou o projeto aos parlamentares.
Com as informações de Mobilize Brasi

Paulista ficará mais tempo aberta aos domingos

AUTOR: RENATO LOBO

Os paulistanos que usufruem da Avenida Paulista aos domingos, quando a via fica aberta apenas para pedestres e ciclistas, devem ganhar mais uma hora de lazer. A partir deste domingo (13/11), a avenida mais famosa da cidade deve ficar aberta das 10h às 19h, por conta do horário de verão.
A Companhia de Engenharia de Trafego – CET informou que deve monitorar o trânsito na região. As linhas de ônibus são deslocadas para vias paralelas, onde funcionam faixas exclusivas.
O público também tem como opção de acesso ao local, o Metrô com 3 linhas que atendem a região. A via fica fechada aos carros entre a Praça Osvaldo Cruz e a Rua da Consolação.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Movimento Revolucionário das Calçadas do Brasil - Washington Fajardo

01/09/2016 06:00 - El País

Nós somos a infraestrutura principal da vida urbana. Nós somos o alicerce das economias urbanas, dos negócios, dos comércios, dos serviços, do turismo, da vida cultural. Nós somos o fundamento da política. Nós somos duras mas temos a capacidade de amolecer os corações e dar gosto à existência na metrópole. Nós protegemos, ou deveríamos, suas crianças. Nós somos cegas, mudas e surdas. Assim como a Justiça, não fazemos distinção de cor, credo, riqueza. Pelo menos assim deveria ser. São os próprios poderosos que nos desvirtuam de nossa função primordial. Não é deste modo, democráticas, que nos constroem. Estamos mal conservadas. Somos poucas ainda. Nós somos negligenciadas pelos homens no poder. Se eles usassem salto alto, lembrariam-se de nós (apesar de muitos terem tal fetiche).
Nós somos da vida pública. Somos da rua. Nós, Calçadas do Brasil, não mais ficaremos quietas. Vamos lutar. Não podemos nos erguer, infelizmente, mas estaremos ali presentes, mirando vocês, brasileiros, e especialmente os políticos, de baixo pra cima. Nós estamos de olho. Vemos todos os segredos de vocês aqui de baixo. Temos um visual claro de todos os seus orifícios, conhecemos suas entranhas.
Somos distintas, diversas, somos de concreto, de ladrilho hidráulico, de pedra portuguesa, de pedra de Lioz, de granito de costaneira, de cimento simples, de bloco inter-travado, de mosaico cerâmico, de terra batida, e agora ficaremos mais unidas. Vamos lutar!
Começa período de eleições municipais em todo o Brasil e uma vez mais os políticos falam da nossa condição, que olharão por nós, cuidarão, mas eles mentem. Nós sabemos bem porque após assumir o poder eles não mais caminham sobre nós. Passam a circular em carros estilo executivo, vidros opacos, blindados, seguranças, e se esquecem de nós, que somos parte essencial da mobilidade urbana, e que estamos com os brasileiros do raiar do sol à noite. Nós estamos com os brasileiros 24 horas por dia, 365 dias no ano. Nós somos parte da verdadeira democracia. Somos parte da vida.
Brasília tem responsabilidade sobre nosso ocaso, pois lá, até para mudar de prédio ministerial, os poderosos vão de carro. Quantas transformações poderiam haver se estivessem todos juntos, políticos e cidadãos, caminhando cotidianamente sobre nós. Que alegria teríamos!
Nós, Calçadas do Brasil, somos essenciais à vida urbana.
É sobre nós que as crianças correm, idosos caminham, a vida circula, os casais se apaixonam, os poetas sonham, as conversas viram empresas, os comércios prosperam. É sobre nós que formam-se as filas de emprego. É sobre nós que o trabalhador volta para casa após um dia cansativo.
Estamos mal conservadas nas áreas ricas, não existimos nas áreas pobres, abandonadas nos centros urbanos. Os carros colocam seus pneus sobre nós, prédios constroem sobre nós em todos os lugares, ricos ou pobres. Ninguém nos representa.
Nós, Calçadas, estamos com a humanidade desde o início das cidades, mas fomos nós que demos graça à urbanidade. Éramos mais amplas e generosas antes do advento do carro, de quem não somos inimigas mas sabemos do desprezo dele para conosco. O “footing" e o “flaneur" do início do século vinte consagrou-nos. O modernismo nos desprezou.
Agora buscam sobre nós, bichinhos virtuais, o Pokemon Go. Já éramos atacadas pelo mundo real e agora é o virtual a invadir-nos. Ao menos este não espeta-nos postes estúpidos. Faz com que as pessoas venham mais para nosso leito, apesar de olharem mais para as telas dos celulares do que umas para as outras. Estamos fartas de obstáculos absurdos. Postes desnecessários, fiação aérea, placas burras, exageradas, ambulantes descontrolados, grades fascistas, prédios sem lojas, luzes automáticas de seguranças. Basta!
Vocês não percebem brasileiros, a loucura que estão vivendo? Voltem para nós!
Sempre fomos silenciosas e generosas mas agora basta! Vamos protestar! Não aguentamos mais!
Brasileiros, de todas as cidades, unam-se a nós, pois sempre estivemos com vocês. Caminharemos juntos, unidos. Nossa récem criada organização, o Movimento Revolucionário das Calçadas do Brasil, será combativo. Nosso lema é “Immotus nec iners”; em bom português “imóvel, mas não inerte”. (Sabemos que o latim é muito bem apreciado em Brasília).
Somos inertes mas temos vida. Rígidas porém flexíveis. Duras mas o fluxo da vida corre em nós. Brasileiros, nós não iremos puxar o seu tapete. Oferecemos sustentabilidade e vida digna na cidade.
Nós, associadas à arborização urbana, resolveremos os desafios climáticos das cidades e do planeta. Ao andar sobre as calçadas, fazemos você saudável, oferecemos melhor condição cardíaca, combatemos a diabetes. Os comércios, as decisões de investimento e empreendimentos sempre precisam de nós. As prefeituras não nos entendem. Não nos projetam. Não nos conservam. Não fazem valer a ordem pública sobre nós. Os prefeitos fazem demagogia conosco.
Há uma revolução em curso. A juventude de hoje prefere nós ao carro. Apoiamos os parklets, os bancos confortáveis, a permeabilidade pluvial, as ciclovias. (Próximas a nós. Não sobre nós.) Nós levamos vocês às praças, aos parques. Nós, calçadas, nascemos dos pés da humanidade. Somos parte do seu corpo. Por que nos abandonas?
Brasileiros, unam-se a nós!
Abaixem um pouco o olhar, deixem de soberba, deixem de pressa, pois vocês ficarão velhos e o buraco em nós que você não reclamas, brasileiro, poderá um dia ser a sua cova.
Calçadas do Brasil, uni-vos! Nosso movimento vai do Oiapoque ao Chuí, porque até na Amazônia tem calçadas.
Lutaremos pelos nossos direitos de sermos boas, seguras, lisas, acessíveis, sem obstáculos, resistentes, bonitas, limpas, ordenadas, democráticas, servindo à você, da sua infância à velhice, o seu estudo, o seu trabalho, a sua família, seus entes queridos. Até vossa morte poderás alongar muito se nos usar mais.
Precisamos de desenho, não precisamos ser caras, de materiais caros, luxos. Precisamos estar em todos os lugares, servindo as vossas solas de sapato, servindo aos vossos encontros, empreendimentos, ao passeio livre, à liberdade.
Somos parte de vocês, brasileiros.
Washington Fajardo é arquiteto e urbanista