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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Planejamento urbano de qualidade poderia evitar até 20% das mortes prematuras

   http://thecityfixbrasil.com/2016/07/28/planejamento-urbano-de-qualidade-poderia-evitar-ate-20-das-mortes-prematuras/
(Jardim de Luxemburgo, em Paris / Foto: Kirua/Wikicommons)
(Jardim de Luxemburgo, em Paris / Foto: Kirua/Wikicommons)
Alguns aspectos da vida urbana como poluição do ar, sedentarismo, barulho, calor e falta de espaço verde podem ter efeitos sobre a saúde e aumentar o número de mortes prematuras. A projeção é preocupante se pensarmos que até 2050 quase 70% da população global estará vivendo nas cidades.
Uma pesquisa publicada no Environmental Health Perspectives (EHP) comparou os níveis de exposição recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com os atuais da cidade de Barcelona. A partir disso, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de análise que quantificou e associou as relações entre exposição e mortalidade para que se estimasse o número de mortes prematuras que poderiam ser evitadas caso fossem cumpridas recomendações internacionais de desempenho de atividades físicas, qualidade do ar, níveis de ruído, calor e acesso a espaço verde. Cerca de 20% das mortes poderiam ser prevenidas se esses aspectos fossem melhor desenvolvidos.
O resultado reitera a importância de uma mudança de paradigma no planejamento urbano e de transportes. Afinal, a qualidade ambiental urbana traz benefícios para a saúde pública: aumentar o transporte público e ativo pode ser benéfico para evitar mortes.
As recomendações da Organização Mundial da Saúde
A OMS recomenda que adultos maiores de 18 anos realizem 150 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos de alta intensidade. Na cidade analisada, mais de 70% dos adultos não eram suficientemente ativos.
Sobre a contaminação do ar, a OMS recomenda que as concentrações de exposição estejam em PM 2.5 anuais e não devem exceder 10 mg/m³. O que não acontece em muitas cidades do mundo. Também segundo a organização, os níveis de ruído entre 7h e 23h não devem exceder os 55 decibéis.
Ainda não existem estudos aprofundados sobre a quantidade recomendada de exposição ao calor no microclima das cidades, mas alguns estudos mostram como as áreas verdes nos centros urbanos podem proporcionar um alívio nesse sentido. O que a OMS recomenda sobre os espaços verdes é que cada cidadão viva a pelo menos trezentos metros de uma área verde.
Na cidade de Barcelona, além de 70% dos adultos serem insuficientemente ativos, os níveis de poluição e ruído de transito excederam os valores recomendados. E apenas dois terços da população vive a menos de 300 metros de uma área verde. Os fatores mais preocupantes para os cientistas foram a falta de atividade física e a poluição do ar que, somados, causam a morte de mais de cinco milhões pessoas ao ano no mundo.
O planejamento urbano e de transportes poderia contribuir para que os níveis de poluição, ruído e atividade física da cidade fossem readequados. Assim, diz o estudo, 20% de óbitos poderiam ser evitados – o que, em Barcelona, equivale a três mil mortes ao ano. As evidências são simples e lógicas. A redução do tráfego motorizado e a substituição pelo transporte ativo e de baixa emissão geram um ganho na qualidade de vida das pessoas, que se exercitam mais e respiram um ar menos contaminado.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Conselho aprova estudo de impacto para povoar cinco eixos de BH

17/05/2016 08:11 - Estado de Minas

Em reunião extraordinária, o Conselho Municipal de Política Urbana (Compur) aprovou o estudo de impacto de vizinhança de um megaplano que promete mudar a paisagem de 99 bairros de Belo Horizonte, com maior ênfase naqueles cortados por cinco avenidas importantes: Antônio Carlos, Pedro I, Tereza Cristina, Presidente Juscelino Kubitschek e Andradas.
O projeto, batizado de Operação Urbana Consorciada Antônio Carlos-Pedro I e Leste-Oeste (OUC Aclo), é um conjunto de intervenções que pretende organizar o crescimento da cidade, melhorar o trânsito, promover a recuperação de áreas críticas e aumentar o aporte em estruturas públicas como praças, viadutos e parques.
O Ouc Aclo, à primeira vista, pode parecer um plano estranho para muita gente: o sucesso dele depende do aumento do adensamento habitacional ao longo das cinco vias. Na prática, surgimento de arranha-céus. A ideia é substituir terrenos vazios e imóveis ociosos por edifícios destinados, na maior parte, ao público de baixa e média rendas.

“São usuários do transporte coletivo”, esclarece Leonardo Castro, secretário adjunto de Planejamento Urbano da capital. Por isso, o plano acompanha importantes avenidas em dois eixos: o BRT, na Pedro I e Antônio Carlos, e o metrô, na Andradas, Tereza Cristina e Presidente Juscelino Kubitschek, também chamada de Via-Expressa.

“É mais fácil trazer o adensamento populacional para perto do transporte público do que levar o transporte público até todas as pessoas, inclusive, em áreas de baixa demanda. É o desenvolvimento orientado pelo transporte sustentável”, defendeu o secretário-adjunto.

A prefeitura constatou que grande parte dos usuários do metrô e do BRT embarca e desembarca nos bairros das extremidades, com baixa demanda ao longo da linha. Os especialistas chamam esse tipo de movimento de pendular: a pessoa vai de manhã ao Centro de BH, onde trabalha ou estuda, e retorna no fim do dia.

Por outro lado, ao longo das avenidas, há muitos imóveis ociosos, como galpões vazios, onde os edifícios podem ser construídos pelo próprio dono do terreno ou por interessados que consigam adquiri-los dos proprietários. Não haverá desapropriação.

Para estimular o dono do terreno a construir novos imóveis ou vender a área a quem tenha interesse em erguê-los, o Executivo aumentará o coeficiente de ocupação do solo em até sete vezes o atual. O documento que atestará a possibilidade de uma empresa ou particular construir com o novo coeficiente precisará ser comprado pelo interessado.
Na prática, é uma forma de a própria prefeitura controlar o adensamento populacional, pois a construtora ou particular interessado em levantar um prédio terá de seguir os critérios a serem divulgados pelo Executivo, como número de garagens (provavelmente uma vaga por apartamento) e até o de banheiro em cada imóvel.
Os documentos que garantem a construção são chamados de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs). A intenção da prefeitura é arrecadar, por baixo, R$ 3 bilhões com os títulos. Esse recurso será usado na revitalização da própria área, uma vez que haverá aumento da população.

O dinheiro será usado na construção de praças, ciclovias, passarelas, postos de saúde, escolas. Também no alargamento de ruas, na iluminação de vias, na implantação de bancos, entre outras medidas. “A expectativa é arrecadar cerca de R$ 3 bilhões, mas é uma análise conservadora”, admite Leonardo.

PRÓXIMOS PASSOS 

O aval do Compur ao estudo de impacto de vizinhança, na prática, significa que o prefeito Marcio Lacerda já pode enviar o projeto de lei que tratará do OUC Aclo à Câmara Municipal. A prefeitura, contudo, fará uma audiência pública para receber sugestões.

A intenção é que o encontro ocorra nas próximas semanas e, até julho, o projeto de lei seja encaminhado à análise dos vereadores. O texto, tanto pela importância quanto por ser ano de eleição municipal, deverá ser debatido à exaustão.
Ainda assim, o secretário-adjunto acredita que o projeto de lei poderá ser aprovado neste ano. Dessa forma, a prefeitura usaria o primeiro semestre de 2017 para estruturar a negociação dos Cepacs, devendo a nova cara de BH começar a sair do papel no fim do ano seguinte ou no início de 2018.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O DIREITO À CIDADE DEPENDE DA DEMOCRATIZAÇÃO DO USO E A OCUPAÇÃO DO SOLO


Entrevista da Ermínia Maricato, bem atual

O direito à cidade depende de reforma urbana que democratize o uso e a ocupação do solo
Entrevista para a Rede Mobilizadores COEP, 16/12/2013
O caos urbano é evidente nas cidades brasileiras: constantes engarrafamentos, moradias irregulares, especulação imobiliária, serviços públicos precários. Investir em políticas públicas é um avanço, mas não é o suficiente, na opinião da urbanista e autora do livro O Impasse da Política Urbana no Brasil, Ermínia Maricato. Para ela, o direito à cidade depende de uma política urbana de estruturação, que democratize, principalmente, o uso e a ocupação do solo.
Professora nas Faculdades de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) e da Unicamp, e integrante do Conselho da Cidade de São Paulo, ela há alguns anos alerta para o fato de nossas cidades serem verdadeiras bombas-relógio.
Nessa entrevista, a especialista fala sobre o direito à cidade, política urbana, estresse nas grandes cidades, impactos dos megaeventos e a falta de planejamento na condução de uma reforma urbana que priorize toda a população.
Rede Mobilizadores – O que é o direito à cidade? O que ele assegura e quais as principais violações a esse direito nas cidades brasileiras?
R.: Existe uma resposta acadêmica e também uma resposta de luta social para essa questão. O direito à cidade é um conceito francês que diz que seus moradores devem ter o direito à cidade enquanto festa urbana, ou seja, a cidade que expressa diversidade e que utiliza seus espaços mais valorizados para oferecer lazer, cultura e serviços à população. Acontece que a ocupação desse chamado espaço urbano é alvo de uma eterna luta de classes dentro das cidades. Historicamente, as populações menos favorecidas ocupam as periferias das cidades, onde o direito à cidade é mais negligenciado, pois falta, na maior parte das vezes, infraestrutura e urbanização.
Aqui no Brasil, a população trabalhadora não consegue entrar na cidade formal. Ela está na periferia, é caracterizada por pessoas excluídas que, ao mesmo tempo, produzem pelas próprias mãos a sua cidade, muitas vezes ilegal, sem transporte público, sem os equipamentos e serviços sociais essenciais, como escolas, museus, universidades, saneamento, iluminação pública.
É uma periferia de tradição escravista que não tem direito aos benefícios urbanos de uma coletividade e que é jogada para áreas ambientalmente frágeis, como áreas de proteção de mananciais, encostas. Esta população não cabe na cidade, ela não tem direito a uma cidade urbanizada e qualificada.
Só para se ter uma ideia da dimensão social deste fato, em Belém, no Pará, mais de 50% da população moram na ilegalidade, em Recife (PE), são cerca de 40%, e na Baixada Fluminense, 80% da população não têm acesso a esgotamento sanitário.
Rede Mobilizadores – Recentemente, a senhora afirmou que nossas cidades são “verdadeiras bombas-relógio”. O que quis dizer com isso?
R.: Em junho recente, com as manifestações que explodiram no país inteiro, pudemos ter uma noção de que alguma coisa está fora da ordem. O estopim começou por causa do transporte público, de péssima qualidade e sem nenhum tipo de planejamento na maior parte das cidades brasileiras. Mas o desgoverno que estamos vivenciando está em todas as esferas. Quem manda é o capital especulativo, é o mercado imobiliário, as empreiteiras, e a indústria automobilística. Costumo dizer que esta é a atual máquina do crescimento urbano e ela está muito articulada. Com a aproximação dos megaeventos, essa questão está ainda mais aparente.
Rede Mobilizadores – O que um bom projeto de política urbana deve prever? O que deve ser feito de forma emergencial para mudar as cidades brasileiras?
R.: Políticas e leis nós temos: Constituição Federal, Estatuto da Cidade, famoso no mundo inteiro, Ministério das Cidades, Conferência Nacional das Cidades, Conselho das Cidades, Lei Federal de Consórcios Públicos, Plano Nacional de Habitação, Lei Federal de Saneamento, Política Nacional de Resíduos Sólidos e por último, o Plano Nacional de Mobilidade Urbana. Porém, precisamos de mais ação por parte do governo para o cumprimento e fiscalização das regras.
É importante ressaltar que houve distribuição de renda nos últimos anos e foi possível para uma parcela considerável da população ter acesso a bens antes restritos. Também voltamos a investir em políticas públicas, mas o direito à cidade como um todo depende de uma política urbana de estruturação, que democratize, principalmente, o uso e a ocupação do solo.
No entanto, o que considero mais emergencial nesse momento é a questão da mobilidade urbana, como os movimentos recentes deixaram bem claro. Temos que priorizar o transporte coletivo e penalizar o automóvel.
Rede Mobilizadores – Quais as consequências do estresse urbano nas populações das cidades brasileiras?
R.: De acordo com o Instituto Saúde e Sustentabilidade, coordenado pelo médico Paulo Saldiva, 30% da população de São Paulo sofre de depressão, ansiedade mórbida ou comportamento impulsivo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 24 metrópoles do mundo, São Paulo apresenta o pior quadro. Veja que 29,6% dos indivíduos da região metropolitana apresentaram transtornos mentais nos doze meses anteriores à pesquisa. A ansiedade afetou 19,9% dos entrevistados. Em seguida transtorno de comportamento e de impulso. Claro que o trânsito tem a ver com isso.
Dois grupos se mostram especialmente afetados: as mulheres que moram em regiões consideradas de grande vulnerabilidade apresentam transtorno de humor, assim como os homens migrantes que moram nessas regiões precárias. Dessas mulheres, 30% são chefes de família. Elas saem para trabalhar e deixam os filhos, que por sua vez ficam sem acesso a esporte, lazer, educação, porque não estão na escola. A mãe não consegue acompanhar. E aí tem a violência policial e o tráfico.
Rede Mobilizadores – O que tem sido feito em termos de políticas públicas voltadas às áreas periféricas e às favelas? Existem políticas bem sucedidas na integração da chamada cidade ilegal à cidade legal? Como deve ser esse processo de integração?
R.: No Rio de Janeiro, em especial, tivemos um programa de urbanização muito interessante que foi o Favela Bairro, que levou equipamentos e serviços públicos para dentro das favelas. Em São Paulo, a pavimentação e a instalação de equipamentos de educação foram uma das coisas mais revolucionárias realizadas na gestão de Marta Suplicy: foram construídos teatro, cinema, espaços para natação, dança, arte, esporte. O trabalho, do qual fiz parte, ficou conhecido no mundo por causa da arquitetura de habitações, pelo know how de urbanização de favelas.
Nos últimos dez anos, houve um retorno do investimento em saneamento, habitação, obras de infraestrutura urbana com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e o programa Minha Casa, Minha Vida. No entanto, como a recuperação do investimento se dá sem a reforma urbana, que tem como ponto central a questão fundiária e imobiliária, ela acontece, no mínimo, de forma desordenada.
A apropriação, principalmente da renda imobiliária e fundiária, se dá por interesses privados e com aumento do preço do metro quadrado dos imóveis, que em três anos chegou a 151%, em São Paulo, e 185%, no Rio de Janeiro. De 2009 a 2012, houve uma explosão no Brasil inteiro do preço do metro quadrado, com despejos violentos.
Rede Mobilizadores – Quais os impactos dos megaeventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, nas cidades?
R.: Costumo dizer que é uma crueldade o que estão fazendo com a população brasileira que mora nas cidades que sediarão os jogos da Copa do Mundo. O capital imobiliário disputa a semiperiferia e os pobres estão indo para mais longe. Temos uma reestruturação da ocupação metropolitana e urbana no Brasil a partir da especulação imobiliária sem controle fundiário e, finalmente, empresas de construção pesada decidindo o que priorizar. Não existe uma discussão em torno da necessidade da obra, se ela é prioridade ou não, se está no Plano Diretor ou não, tanto faz. O comportamento especulativo e o viés patrimonialista têm sido predominantes.
Onde há maior arbitrariedade de intervenção na cidade é no Rio de Janeiro. Estão fazendo com que a população pobre saia do Centro e vá para o fim do mundo. A área portuária, em especial, sofre uma supervalorização.
Rede Mobilizadores – Como os cidadãos podem participar do planejamento das cidades?
R.: O que costumo dizer é que não nos falta conhecimento técnico, nem expertise para saber o que fazer com relação ao planejamento das cidades. Acho que o que falta é o enfrentamento aos interesses do grande capital que aí estão. Acho que ir para as ruas manifestar indignação é uma forma de participação. Depois das manifestações de junho, a pauta é a política de transporte coletivo no país.

NOSSAS CIDADES SÃO UM GRANDE NEGÓCIO NA MÃO DE POUCOS

brasil de fato

Entrevista com a Ermínia Maricato, de 2014, mas bastante atual

tamanho-grande-entrevista-eFoto: Noronha Rosa, para o Brasil de Fato
Arquiteta fala sobre o boom imobiliário, a mobilidade urbana e as conquistas das manifestações
Entrevista para o
 Brasil de Fato
Joana Tavares, Belo Horizonte (MG)
12/05/2014
Uma das principais pensadoras sobre as cidades brasileiras, Ermínia Maricato foi secretária executiva do Ministério das Cidades, formulou propostas para a área urbana para o governo Lula e recentemente foi conselheira das Nações Unidas para assentamentos humanos, além de dar aulas na USP e na Unicamp. Convidada para o Ciclo de Debates do Brasil de Fato MG, Ermínia fala nesta entrevista sobre a crise nas cidades e as perspectivas abertas com as manifestações de junho 2013.
Brasil de Fato – O movimento das ruas de 2013 trouxe uma série de reivindicações, entre elas a questão da ocupação do espaço urbano. Que conquistas esse movimento trouxe?
Ermínia Maricato – Sabe quantas cidades brasileiras cancelaram o aumento nos transportes com as mobilizações de junho de 2013? Mais de 100! E não foi só isso. Coisas que estavam engavetadas, obras faraônicas inúteis e obras para automóvel andar – que é o que mais se faz- muitas foram canceladas. Foi muita mudança a partir de junho de 2013. A vida na cidade está insuportável e é impressionante como a política urbana é invisível no Brasil. A mobilidade e o uso e ocupação do solo são dois eixos fundamentais. Eu diria que depois das ultimas três décadas, estamos, desde junho de 2013, começando a encarar a política de mobilidade urbana. Mas a política fundiária urbana nós ainda não começamos a decifrar. Eu diria que a própria sociedade suporta muito e conhece pouco. Nossas cidades são um grande negócio na mão de poucos. Ou seja, lobbys muito bem organizados funcionam pra levar a cidade para um caminho que não beneficia a maior parte da população. É muito mais o caminho de quem tem lucro com a construção das cidades. Sem dúvida nenhuma, eu diria que as três forças que comandam hoje o crescimento das cidades são a indústria automobilística, que contraria o interesse do transporte coletivo; o capital imobiliário e o capital de construção. E tudo em consonância com o financiamento das campanhas eleitorais.
Podemos dizer então que não são cidades do povo e para o povo, e sim pra quem especula esse mercado.
Não tenho a menor dúvida. Estudando as cidades por muitos anos, eu diria que estamos num momento em que vivemos uma verdadeira tragédia das cidades brasileiras, em que a função social das cidades, prevista na Constituição brasileira; a função social da propriedade, prevista na Constituição brasileira e no Estatuto da Cidade, estão em plano absolutamente secundário.
O que é a função social da propriedade?
Nós conquistamos na Constituição de 1988 dois capítulos sobre as cidades. E dentro desses capítulos está a proposta da função social da propriedade. É exatamente a ideia de que o direito de propriedade privada é limitado. Pelo quê? Pelo interesse coletivo. Todos nós pagamos pra construir a estrutura das cidades – asfalto, drenagem, esgoto, iluminação pública, transporte – tudo isso foi pago por todo mundo. E vai um sujeito e deixa um lote vazio. Esse lote está cumprindo a função social que tem que ter numa cidade? Não! A propriedade privada não é absoluta na Constituição, é subordinada à função social. O direito à moradia é absoluto. No entanto, o judiciário brasileiro trata o direito à moradia como relativo e o direito à propriedade como absoluto.
Qual sua avaliação do programa Minha Casa, Minha Vida e das intervenções em vilas e aglomerados?
Estamos vivendo no Brasil um boom imobiliário. Durante três anos, houve um aumento de 154% no preço do metro quadrado de terrenos e imóveis em São Paulo, e 181% no Rio de Janeiro. Os aluguéis cresceram na mesma medida. Passamos duas décadas perdidas, sem investimento público nas cidades. Quando o investimento vem, por meio dos PAC e Minha Casa, Minha Vida, aparecem também os capitais, que tomaram conta das cidades. Com o apoio, é claro, de muitos do executivo e legislativo. Isso acarretou em um boom imobiliário, que a verticalização e a produção de moradia, ao invés de abaixarem o preço dos imóveis, elevaram. Na medida em que não fizemos a reforma fundiária, não implementamos a função social da propriedade urbana, todo o subsídio que está sendo colocado pelo governo federal está indo para o preço da propriedade, para os imóveis e para os terrenos. Isso está afastando a população mais pobre, que não consegue o financiamento do Minha Casa, Minha Vida e que não está conseguindo mais pagar o aluguel. O boom imobiliário não é progresso, ele empobrece toda a cidade. Ele pega uma parte da riqueza produzida por toda a população e  a coloca no bolso de alguns, que são os proprietários imobiliários e principalmente os incorporadores imobiliários.
Como é possível aliar esse gás novo de se pensar as cidades com o acúmulo de organizações e movimentos que já faziam a disputa do modelo de cidade, de Estado, de política?
Acho que a política urbana não é prioridade para os partidos, nem os de esquerda, no Brasil. É preciso dar visibilidade para a luta de classes que se dá em torno das cidades. O espaço urbano não é apenas palco para a luta de classe, é objeto e agente. A gente precisa conhecer mais. Mais do que nunca, a informação, o conhecimento é a libertação.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

As prioridades das metrópoles versus o analfabetismo urbanístico

Jornal GGN – Desde a criação do Estatuto e do Ministério das Cidades, o desenvolvimento das metrópoles brasileiras ganhou um direcionamento claro, que pôde se traduzir em Planos Diretores progressistas e inclusivos.
Mesmo assim, a adoção de políticas públicas consonantes com as novas diretrizes tem causado transtornos para os administradores.
Talvez o caso mais emblemático seja o da cidade de São Paulo. Começou com a implantação da faixas de ônibus e ciclofaixas, e persistiu na redução dos limites de velocidade no viário urbano.
Ao adotar essas medidas e fazer cumprir a lei em sua gestão, o prefeito Fernando Haddad passou a ter que lidar com a oposição da mídia, do Ministério Público e em alguns casos do próprio Judiciário.
A literatura técnica é frequentemente ignorada. E o senso comum trava a agenda de desenvolvimento.
A isso, a ex-secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano do Município de São Paulo, fundadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos, Ermínia Maricato, chamou de “analfabetismo urbanístico”.
Ela esteve presente no 66º Fórum de Debates Brasilianas.org.
Analfabetismo urbanístico
“Se o senso comum fosse o critério da verdade, o sol ainda estaria girando em torno da terra. Para isso que serve a ciência. Mas existe uma representação ideológica da cidade e isso leva a um desconhecimento do que é a cidade real”.
Uso e ocupação do solo
“O aumento de renda de parte da população fez com que ela pudesse construir uma casinha. Só que ela não tem condição de chegar no lote legal. O lote legal é muito caro. E a gente não enxerga uma linha na imprensa sobre isso. Uma linha! Porque estamos tratando da cidade ilegal e ela é invisível, ela não interessa, ela fica fora. Os pobres avançam sobre a área de proteção ambiental. Essa área é o que sobra. Por quê? Porque não tem valor de mercado”.
Mobilidade
“Não é só investimento, mas é o comportamento da população, nós deveríamos investir muito no comportamento da população. Nós precisamos acreditar que a população se mobiliza, se sensibiliza se ela for tratada como ser inteligente. Coisa que não é. Pelos nossos veículos de comunicação de um modo geral”.
Projetos ruins para a cidade
“Nós derrotamos, nós eu digo porque nós também fizemos um documento de doutores em urbanismo para acabar com o aeroporto que estava previsto em área de proteção dos mananciais. Um aeroporto privado. Mas ele não está totalmente descartado nem arquivado. Então, é bom todo mundo acompanhar o que acontece na cidade de São Paulo”.
“Nós conseguimos barrar um túnel, que estava previsto na Operação Águas Espraiadas, de mais de três quilômetros. Um túnel que ficaria um projeto de mais de R$ 1 bilhão. Agora, esse projeto desse túnel está vivo. Ele não foi incinerado. Dependendo do próximo prefeito, nós vamos pagar por esse absurdo”.


As mudanças de paradigmas na gestão das cidades

Jornal GGN - O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, esteve presente no 66º Fórum de Debates Brasilianas.org, evento promovido pelo jornalista Luis Nassif para discutir a agenda de desenvolvimento nacional.
Nessa edição, eles falaram sobre como preparar as metrópoles para serem cidades inclusivas, democráticas e humanas. Haddad abordou temas como mobilidade, uso e ocupação do solo, educação, política e comportamento.
“Como 12 milhões de pessoas - 22 milhões se contarmos a área metropolitana - podem aprender a conviver?”, questionou o prefeito da maior cidade da América Latina.
E falou sobre seus esforços para democratizar o viário urbano e demarcar terras para populações mais pobres. “Quanto menos misturados os distritos, os bairros, mais disfuncional vai ser a cidade”, defendeu.
Em sua fala sobre mobilidade, o prefeito defendeu as ações que priorizaram o transporte coletivo e as bicicletas. Falou sobre a noção de “indústria da multa” e sobre a impossibilidade de solucionar os congestionamentos apenas com investimentos na malha viária para o transporte individual.
Também falou sobre o Plano Diretor e sobre o conflito entre o espaço público e o privado. “Seria da dinâmica do mercado expulsar a população pobre da cidade. Deixada à própria sorte, a cidade expele pobre. Se o poder público não intervém e altera essa realidade, demarcando áreas para a população de baixa renda, de maneira a garantir acesso à terra, a lógica da expulsão vai prevalecer”.
E disse que as restrições ao proprietário fundiário precisam ser observadas, não apenas no campo, mas também nas cidades.
Haddad criticou ainda os políticos de carreira. Na visão dele, a atuação na política institucional deveria ser um chamado temporário. “A política não pode ser o meio de vida e nem a profissão da pessoa. Essas pessoas que querem se eternizar na política só criam transtorno na política, em minha opinião. Porque impedem gente jovem de entrar e dá uma sensação de que a política tem dono. Tem alguma barreira à entrada que nós precisamos superar. E mais do que uma barreira à entrada, parece que tem também uma barreira à saída”.
Ele disse que a partidarização de discussões técnicas atrapalham o desenvolvimento da agenda da cidade. E acredita que em muitos casos a realidade se impôs sobre a ideologia. “Prefeitos de direita e de esquerda estão sendo obrigados a adotar a mesma agenda”.
O prefeito evitou criar problemas, mas comentou a atuação do Ministério Público de São Paulo, que comprou a briga política e vem tentando impedir a implantação de novas ações, desde ciclovias até a abertura da Avenida Paulista para as pessoas.
“Eu aprendi lá no Largo São Francisco que o Ministério Público é um guardião da lei. Eu acho que nós não estamos lendo o mesmo diploma legal. Artigo 23, inciso primeiro, diz que o poder público determinará os locais que permanentemente ou temporariamente ficarão fechados à livre circulação de veículos automotores. Isso é determinação legal. Por isso que o Tribunal tem dado ganho de causa para a Prefeitura”.
Por fim, o prefeito se lembrou da ocasião que o levou, como ministro da Educação, a levar a cabo a reforma do ENEM.

A urbanização patrimonialista e o apartheid social

Jornal GGN – As cidades brasileiras vivem um momento de necessárias transformações. O modelo europeu de Estado de bem estar social tenta se impor sobre a lógica patrimonialista, que mantém a propriedade privada como valor central da sociedade.
A criação do Estatuto das Cidades e do Ministério das Cidades foram os primeiros passos. E, enquanto ainda surgem Planos Diretores alinhados com os interesses do capital, prefeitos progressistas também conseguem criar agendas desenvolvimentistas.
O Plano Nacional de Mobilidade Urbana lastreou em lei federal a priorização ao transporte público em detrimento do motorizado individual.
As questões de uso e ocupação do solo também entraram na ordem do dia. E a demarcação de terras de interesse social, política adotada em algumas regiões, busca criar caminhos para reduzir o déficit habitacional.
Mesmo assim, para que essas mudanças sejam possíveis, elas precisam ser perenes. Se a sociedade não se responsabilizar por essas transformações para além das disputas políticas e partidárias, elas podem ser interrompidas da noite para o dia.
Quatro anos não são o bastante para reestruturar cidades inteiras. O tempo social precisa prevalecer sobre o tempo político.
Essa é a opinião de João Sette Whitaker, professor livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, presente no 66º Fórum de Debates Brasilianas.org
A apropriação do público pelo privado
“As cidades no capitalismo são sempre o antagonismo entre os interesses do mercado, que utiliza a cidade pelo seu valor de troca, e a sociedade civil, organizada ou não, que vê a cidade pelo seu valor de uso. E uma das grandes perversidades e contradições da cidade capitalista é que a produção de localizações que é feita pela sociedade gera valorização e, portanto, ela é apropriada apenas por aqueles que têm a possibilidade e a capacidade financeira de fazer. A lógica da cidade capitalista tem essa perversidade: ela produz uma  cidade que é coletiva, mas que é apropriada individualmente”.
A cidade não é uma soma de privilégios
“A questão é que naturalmente nós tendemos sempre a ver a cidade como uma soma de privilégios. Enquanto que nós, urbanistas, temos o problema de tentar mostrar que as cidades agradáveis são as cidades coletivas, democráticas e solidárias”.
A interpretação da cidade pela classe dominante
“Vamos tentar entender qual é a interpretação da cidade que a classe dominante faz. O que tem de pior nessa história é que se vende a ideia que nós temos uma urbanização ruim, péssima, horrível, cinzenta e que se mistura à criminalidade, que está ameaçando o quê? Uma urbanização maravilhosa, bonita, com prédios coloridos. E isso é uma tremenda enganação. Porque a urbanização dos ricos é horrorosa. Ela é segregadora, ela é dos privilégios, ela não se importa com nada, nem mesmo com o fato de criar verdadeiros muros da vergonha”.
A necessária lógica da solidariedade urbana
“A gente tem que se perguntar se a nossa sociedade está preparada para produzir cidades não pela lógica do privilégio, mas pela lógica da solidariedade urbana. Esse é o grande desafio. A gente precisa entender para além das disputas políticas, porque as disputas políticas, partidárias, imediatistas, contaminam a gestão da cidade. E a gente precisa saber relevar isso. Precisa chegar em um grau de maturidade da nossa participação cidadã em que a gente saiba identificar que a gestão da cidade tem que ser perene. Ela tem que sobreviver às gestões”.
Stand up tragedy do urbanismo nacional
“Você quando é urbanista pode fazer stand up tragedy. Eu fui uma vez no César Tralli, no SPTV. E aí eu conversei com a faxineira da Globo. E perguntei: ‘onde a senhora mora?’. Ela falou: ‘eu moro aqui no Real Parque’. Ela morava a 232 metros do trabalho... a nado! Aí eu perguntei: ‘quanto tempo a senhora leva pra chegar aqui?’. Ela falou: “em dia de chuva 1h15, se não tiver chuva 45 minutos”. Porque ela tinha que descer até a ponte do Morumbi e voltar pela Berrini para chegar lá na Globo. Porque para ela e para todos os pobres do Real Parque é proibido, com uma barreira, que é uma ponte que custou milhões e que é o cartão postal da cidade, a travessia daquela ponte para ir trabalhar. Porque incomodaria o bairro Global da cidade de São Paulo”.

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Planejada para carros, Brasília terá que se reinventar através da mobilidade

AUTOR: LUCAS CHICONI 

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Outubro de 2010. Numa viagem técnica da faculdade, estou com amigos e professores em Brasília, a capital federal do Brasil. Fundada em 21 de Abril de 1960, Brasília é resultado de um concurso para a nova capital do Brasil (a terceira, após Salvador e Rio de Janeiro) e teve seu plano urbanístico, conhecido como Plano Piloto, projetado pelo urbanista Lúcio Costa, e suas edificações pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
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A cidade é Patrimônio Mundial pela UNESCO, pelo seu conjunto arquitetônico e urbanístico, sendo a maior área tombada do mundo. Além disso, a maior cidade do mundo construída no século XX. Esta área se refere ao Plano Piloto, o qual é composto pelas super quadras das Asas Norte e Sul, Eixo Monumental e Parque Nacional de Brasília.
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Com um PIB superior a 171 bilhões de reais, esta é a terceira cidade que mais gera riquezas no país, atrás somente de São Paulo e Rio de Janeiro. Sua população é estimada em 2,9 milhões de habitantes (referente ao próprio Distrito Federal, portanto, Plano Piloto e Cidades-Satélites), sendo a quarta maior do país dentre as municipalidades, mas se mantendo na sétima posição quando referente às regiões metropolitanas, com cerca de 4 milhões de habitantes, conhecida como Região Integrada deDesenvolvimento do Distrito Federal e Entorno. É importante reforçar que Brasília é o Distrito Federal brasileiro, não sendo classificada como município, propriamente dito, assim suas cidades-satélites não sendo classificadas, oficialmente, como bairros ou distritos urbanos.
No contexto histórico desta cidade, devemos destacar que foi inaugurada em 1960 pelo presidente Juscelino Kubitschek, período em que definiu o futuro da mobilidade urbana no país: os automóveis e o sistema rodoviário. Os milhares de quilômetros de ferrovias existentes no Brasil não era mais prioridade e, diante do desenvolvimento do automóvel em outros países, como os Estados Unidos, por exemplo, optou-se pelo investimento no transporte individual.
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Não é preciso refletir muito para compreender as consequências dessa ação: espraiamento urbano; deterioração de setores urbanizados, inclusive de edificações; congestionamentos; poluição atmosférica; sucateamento das redes de transporte público coletivo, dentre outras problemáticas socioambientais. Brasília, apesar de diversas referências nobres da Arquitetura e Urbanismo no Brasil, como as variadas soluções adotadas para suas edificações, como as áreas residenciais das super quadras (formadas por edifícios residenciais, vilas de residências unifamiliares e comércios locais), onde o solo é predominantemente público, definindo suas quadras abertas à favor do caminhar do pedestre; da fruição pública… Brasília é também uma cidade planejada para os carros. Suas imensas avenidas rasgam a metrópole até o horizonte, porém, nem sempre há calçadas, nem sempre há vida urbana, propriamente dita, em suas ruas.
O sol, naquele imenso céu da capital, arde sobre todos as cabeças e seu clima árido, do Cerrado, contribui para que o caminhar em setores importantes, como os bancários, comerciais e políticos, todos ao redor do Eixo Monumental, não tenham uma expressividade de pedestres. É um clima diferente para quem está acostumado com a umidade próxima ao litoral. As grandes quadras geram grandes distâncias entre as edificações, ocasionando percursos difíceis e desagradáveis ao caminhar. O CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), um exemplo belíssimo de arquitetura em edificação pública e cultural, é praticamente um ponto isolado entre o Eixo Monumental e o Lago Paranoá, sem um percurso qualificado para pedestres e ciclistas, por exemplo.
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Ciclovias são quase imperceptíveis em boa parte do Plano Piloto, assim como o transporte coletivo, que também é nítido que não está entre as prioridades da capital federal. O metrô, com aproximadamente 40 km de extensão, serve uma parte das áreas urbanizadas da metrópole, porém, suas estações estão posicionadas em locais quase que inadimplentes e desfavoráveis a integrações. Sua estação Central, localizada em meio ao Eixo Monumental, pode ser interessante por abrigar comércios e a rodoviária, mas se torna imensamente desagradável chegar até ela a pé – mesmo que há poucas quadras de distância.
O paisagismo parece não ser planejado para proporcionar sombras, por exemplo. A segregação é outra questão muito negativa, e que pode impactar fortemente na mobilidade urbana, visto que este talvez seja um dos poucos lugares no mundo onde ricos e pobres quase não se cruzem diariamente, tendo assentamentos informais de grande porte, como Sol Nascente e Estrutural, em cidades-satélites, bem opostos aos nobres bairros do outro lado do suntuoso Lago Paranoá. Este, denominados Lago Norte e Lago Sul, definem a elite que vive nestes bairros de baixa densidade demográfica, com grandes lotes que abrigam as maiores mansões do Distrito Federal.
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Por alguns momentos, muito semelhantes ao Morumbi, famoso bairro de mansões da Zona Oeste de São Paulo, onde a vida urbana é escassa, as calçadas desqualificadas e a predominância de uso: residencial de baixa densidade. Em outras palavras, grandes mansões e mais nada. Portanto, o uso do automóvel torna-se quase que obrigatório nesse modelo urbanístico. Algo desagradável aos olhos, em Brasília, é a quantidade de carros estacionados quase que em qualquer espaço da cidade. É mais notável a quantidade de autos nas ruas do que a de pessoas, e estes ocupam espaços consideráveis que poderiam ser requalificados para abrigar áreas de conforto e lazer para a população em meio aos vários edifícios que compõe os setores ao redor do Eixo Monumental.
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Uma paisagem extraordinária formada por edifícios de uma arquitetura sublime e reconhecida internacionalmente. Um lago paradisíaco que transforma drasticamente a aridez do Cerrado e dispõe de um pôr-do-sol dos mais encantadores. As torres do Congresso Nacional e a imensa bandeira brasileira despontam num horizonte inesquecível. É tudo muito planejado, setorizado e criado. Ventos fortes rasgam esse céu iluminado de Brasília e nos encanta por ser a capital de uma das maiores e mais influentes nações que o mundo já viu. Poética, Brasília é uma cidade que nos faz sentir orgulho em ser brasileiro. Sua imponência arquitetônica, de sua catedral ao Palácio do Planalto, chocam os olhos à primeira vista e nos remetem ao poder brasileiro diante do mundo. Porém, algo a ser questionado nesta cidade é que seu planejamento urbano foi voltado especificamente para o momento de sua fundação e o impulso à indústria automobilística.
Portanto, Brasília não desenvolveu muito, em seus 55 anos, suas políticas e projetos de mobilidade urbana. Contudo, a capital do Brasil tem um imenso potencial econômico e político a ser explorado para desenvolver a metrópole diante das demandas da era contemporânea. Seu transporte sobre trilhos precisa crescer e ter seu plano revisto, visto que novas demandas estão surgindo e, de seus 4 milhões de habitantes na metrópole, seu sistema de metrô transporte apenas 130 mil habitantes diariamente. Para comparação, o sistema metro-ferroviário de São Paulo transporta cerca de 8 milhões de passageiros por dia (diante dos 21 milhões de habitantes da metrópole). Uma das funções obrigatórias dos urbanistas no século XXI é combater o analfabetismo urbanístico, de acordo com Ermínia Maricato, ou seja, não podemos nos conformar com o rodoviarismo brasiliense só porque a cidade é tombada como Patrimônio da Humanidade e reconhecida pelas obras sublimes da arquitetura de Oscar Niemeyer.
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As cidades são organismos vivos que tem a necessidade de se transformar. E arquitetos e urbanistas sabem muito bem que é possível fazer projetos de prestígio que saibam integrar as demandas contemporâneas ao nosso patrimônio tombado. A mobilidade urbana não separa. Integra, gera fluxos e propõe soluções às cidades. Numa breve conclusão, os melhores projetos são sempre aqueles feitos para a escala humana, assim como os piores são estes que se esquecem que as cidades servem aos homens e não aos automóveis.