segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Lobista tucano investigado pela PF recebia dados privilegiados do Metrô e da CPTM

Um lobista investigado pela Polícia Federal sob a suspeita de ter intermediado o pagamento de propina da Alstom para políticos  do PSDB tinha um parceiro na cúpula da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do governo paulista, que lhe fornecia dados internos do Metrô e da CPTM. O acesso privilegiado do consultor José Fagali Neto foi revelado por sua ex-secretaria Edna Flores, em depoimento aos Ministérios Públicos federal e estadual.

 Ela entregou e-mails que comprovam a relação. As mensagens também mostram a proximidade de Fagali Neto com consultores e empresas investigados pela PF e o Ministério Público pela propina no sistema de trens do Estado entre 1998 e 2008, segundo a delação feita pela Siemens em maio deste ano.

 A ex-secretária disse à Folha que o engenheiro Pedro Benvenuto, atual secretário-executivo do conselho gestor de Parcerias Público-Privadas da Secretaria do Planejamento do governo Alckmin (PSDB), frequentava o escritório de Fagali Neto em 2006 e 2007. Na época, Benvenuto era coordenador de gestão e planejamento da Secretaria de Transportes Metropolitanos.

 Metrô e CPTM são empresas ligadas à pasta. Em 2006, Geraldo Alckmin (PSDB) era o governador; o também tucano José Serra assumiu em 2007. "Ele às vezes usava o meu computador para alterar dados de planilhas de assuntos que ele tinha com o Fagali", diz Edna. Segundo ela, Fagali mandava-a para o shopping quando executivos da Bombadier iam ao escritório. 

 MENSAGENS 

 Em julho de 2006, Benvenuto transmitiu a Fagali Neto cópia de um e-mail com discussões e planilhas sobre o Programa Integrado de Transportes Urbanos do governo até 2012. Na época, os dados públicos sobre gastos do Metrô, reunidos no Plano Plurianual, só iam até 2007. Em setembro de 2006, a um mês das eleições para o governo do Estado, Benvenuto usou um e-mail pessoal para encaminhar a Fagali um plano de ações da futura gestão na área de transportes.

 Um conjunto de e-mails reunido pela secretária também mostram que empresas como Bombardier e Tejofran contrataram os serviços de Fagali Neto para tentar conquistar uma parceria público-privada com a CPTM para reformar trens da série 5000 --um negócio que poderia alcançar R$ 1 bilhão. As duas empresas são acusadas pela Siemens de fazer parte de um cartel que atuava no Metrô, na CPTM e no governo do Distrito Federal(Arruda e Roriz).

 Em um e-mail de novembro de 2007, o diretor de novos negócios na Tejofran, Telmo Porto, escreveu diretamente a Carlos Levy, presidente da Bombardier na época: "Preocupa-me a divisão do nosso grupo na PPP-5000, pois temo que dissidência inicial crie concorrente forte". O negócio, porém, não foi adiante. O Metrô preferiu comprar trens a reformá-los. 

 O consultor Fagali Neto tinha intimidade com o setor. Seu irmão, José Jorge Fagali, foi gerente financeiro do Metrô em 2006 e presidente da empresa entre 2007 e 2010. Em razão da suspeita de o consultor ter intermediado propinas da Alstom, o governo da Suíça bloqueou uma conta atribuída a ele, com saldo de US$ 6,5 milhões.Na Folha
Secretária diz que era proibida de pronunciar nomes de envolvidos 

 O depoimento de Edna Flores mostra que não é fácil a vida de um investigado pela Polícia Federal. Jorge Fagali Neto, seu ex-patrão, teria quatro celulares --dois em nome dela-- para fugir de escutas. Em 2008, o nome de Fagali apareceu ligado a pagamento de propina da Alstom. Ele "ficou histérico" quando jornalistas passaram a assediá-lo, sempre segundo ela. 

 Na casa de Fagali, onde ela trabalhava, nomes de outros envolvidos na apuração não podiam ser pronunciados, diz. Flores contou ao Ministério Público que estava proibida de citar os nome de José Geraldo Villas Boas, investigado no caso Alstom, Telmo Porto, da Tejofran, Nelson Cabral, da Bombardier, e do advogado Rubens Naves

. Alguns eram tratados por apelidos, diz. Villas Boas era "o geólogo". Naves, "o síndico do Horsa", nome do edifício onde fica seu escritório. Uma vez, conta, Villas Boas ligou pedindo o telefone de Jean-Pierre Courtadon, francês também citado nas investigações. O consultor passou-lhe um pito, diz ela: "Nunca mais fale esse nome dentro dessa casa ao telefone".

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