segunda-feira, 25 de março de 2013

O problema da logística de grãos não é nos portos


José Augusto Valente




Foto: Fabrizio Motta / Agência RBS
Desde 2003, ano da gigantesca fila de caminhões em Paranaguá/PR, que ouvimos que o problema do escoamento das safras de grãos se dá nos portos. Nada mais equivocado.
A Agência T1 entrevistou Roberto Queiroga, especialista na área de cereais (Superintendente da Cebra), que nos mostrou que o grande problema da logística dos grãos, especialmente soja e milho, se dá antes de chegar ao porto e não nele. Assista a entrevista aqui.
A matéria do Estadão do último domingo (17/3) mostra alguns desses problemas, mas um dos títulos “Caos nos portos não tem prazo para acabar”, dá a entender que esse é o problema, quando não é.
O principal problema, que não será resolvido pela MP-595 (nova lei dos portos), diz respeito à insuficiência de silos para armazenagem dos grãos, nas regiões produtoras e nos terminais portuários. Ocorre que os embarcadores – aqueles que compram a produção de grãos e a exportam – não constroem silos suficientes porque as linhas de crédito existentes são caras. Assim, quando chega à época da safra, o caminhão se transforma num silo ambulante e vai para Santos – os maiores portos exportadores de grãos – ainda que não estejam agendados. Acontecia o mesmo em Paranaguá, mas o então governador Roberto Requião determinou que o porto passasse a fazer agendamento para a chegada dos caminhões, o que eliminou as filas desnecessárias que se formavam nessa ocasião. A regra, que deve ser seguida por Santos, é: caminhão não agendado, nem chega perto do porto.
O segundo problema crucial, bem mostrado pela matéria, diz respeito à insuficiência de ferrovias e de hidrovias para escoamento da produção de Mato Grosso, em direção ao rios Madeira, Tapajós e Amazonas, bem como em direção aos portos do Nordeste. Devido à essa insuficiência, o caminhão tornou-se o meio de transporte mais utilizado para escoamento dos grãos. Às custas de ineficiências como aviltamento do frete, excesso de peso por eixo, de longas jornadas de direção e consequentes acidentes com graves ferimentos, mortes e perdas de veículos.
O governo federal precisa acelerar a construção da FICO – Ferrovia de Integração Centro-Oeste –, da Ferronorte, da Norte-Sul e as interligações entre esses troncos ferroviários. Além disso, precisa concluir a pavimentação da BR-163/PA/MT (hoje, 55% dos 978 km estão concluídos), que permitirá escoar mais de cinco milhões de toneladas de grãos do Mato Grosso pelos portos graneleiros de Miritituba e Santarém.
O governo federal também precisa viabilizar linhas de financiamento baratas para construção de silos de grãos, nas regiões produtoras e nos portos. Mas esse dinheiro barato tem que ter como contrapartida ganhos para os produtores e para os consumidores internos.
Finalmente, outro problema que precisa ser resolvido é o de acesso terrestre, especialmente, ao porto de Santos. Mas somente para os caminhões que estiverem agendados e não para todos os caminhões que tentam uma “janela” para descarregar o seu grão.
Lembrar que a produção de grãos tem sazonalidade e que não faz sentido construir muitos terminais que funcionem bem nos momentos de pico, mas que permaneçam ociosos nos demais períodos. A função dos silos é exatamente o de regular o fluxo do escoamento das safras.
Entretanto, se o agronegócio quiser construir mais terminais, inclusive de uso privado, para grãos, tanto a lei anterior (Lei 8.630/93), como a atual (MP-595/13) permite que se faça. Mas, como vimos, o problema dos grãos não está nos portos.
José Augusto Valente é Diretor Executivo dos portais Agência T1 e TVT1

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