segunda-feira, 18 de março de 2013

A reciclagem de veículos leva a um novo modelo econômico sustentável, diz especialista :: Daniel Castro


Foto: Reprodução
Autor do livro ‘Reciclagem & Sustentabilidade na Indústria Automobilística’, o professor do curso de mestrado em Engenharia da Energia do Centro Federal de Educação Tecnológica da Minas Gerais (Cefet-MG), Daniel Castro, redigiu um artigo para o site do Programa Ambiental do Transporte – Despoluir.
A partir de experiências positivas de outros países como o Japão, ele relata a importância de os governos investirem no processo de reciclagem de veículos, com impacto na melhoria de condições ambientais e econômicas. Castro alerta que, no Brasil, onde a frota de veículos já superou 40 milhões de unidades, este processo de renovação é urgente.
Leia o artigo na íntegra:
Em março do ano passado lancei o livro “Reciclagem e Sustentabilidade na Indústria Automobilística”, que relata a importância do processo de reciclagem dos veículos, seu impacto na melhoria do meio ambiente e também na economia de um país.
O livro mostra o estado da arte dos processos de reciclagem de veículos em diversos países e destaca o processo de reciclagem do Japão, país que lançou uma lei reguladora desse processo em 2005 e hoje já conta com uma ampla rede de empresas que trabalham com a reciclagem de veículos.
Com isso, houve um aumento na oferta de empregos no país, redução a praticamente zero do abandono de carros em ruas afastadas, terrenos baldios ou mesmo em córregos e rios e redução significativa do volume de resíduos destinados a aterros sanitários.
A reciclagem de um produto tão complexo como um veículo é uma necessidade não somente nos países mais desenvolvidos, mas também nos países em desenvolvimento como o Brasil, cuja frota de veículos já superou 40 milhões de unidades e apresenta uma taxa crescente de fabricação de novos veículos
Existe ainda um enorme potencial de crescimento da frota de veículos no Brasil, se compararmos com países como os Estados Unidos, que tem o maior número de veículos por habitante no planeta, 765 veículos para cada 1000 habitantes (1), ou Japão com 543 veículos para cada 1000 habitantes (1) ou mesmo a Espanha com 471 veículos para cada 1000 habitantes (1).
Atualmente, o Brasil tem aproximadamente 200 veículos para cada 1000 habitantes (2). Isto significa que, apesar de todos os transtornos observados nas grandes cidades nos últimos anos por causa do aumento das frotas de veículos, o mais provável é que o número de veículos continue crescendo nos próximos anos.
O que acontece é que em vários países desenvolvidos existem processos de reciclagem de veículos regulamentados por legislações nacionais, como é o caso do Japão e também de alguns países da Comunidade Europeia.
Nos Estados Unidos não existe uma lei específica para a reciclagem de veículos, mas existem várias regulamentações ambientais que fazem com que os fabricantes de veículos gerenciem os resíduos dos veículos em fim de vida útil e, portanto, a maior parte dos veículos é reciclada, de fato, para recuperar materiais de grande valor econômico como sucatas metálicas e autopeças que podem ser utilizadas nos consertos de veículos em circulação.
Em quase todos estes países o grau de reciclagem dos veículos supera os 80%, em alguns casos atingindo índices de reciclagem entre 90% e 95% como no Japão e em alguns países da Comunidade Européia (3).
A reciclagem não deve ser vista como uma atividade complementar na sociedade, sem muito valor agregado e onde somente pessoas que vivem praticamente na marginalidade conseguem ganhar seu sustento diário com essa atividade, como no caso de catadores de rua.
Tanto a reciclagem de veículos como a de qualquer produto fabricado industrialmente deve ser considerada como uma atividade de grande valor agregado, já que ela permite transformar produtos acabados em suas matérias primas originais.
É importante lembrar que a própria natureza possui ciclos construtivos e desconstrutivos, sem os quais a vida na terra não poderia subsistir. Podemos assim citar a fotossíntese das plantas como um ciclo construtivo excepcional, onde a energia proveniente da radiação solar é utilizada na construção de moléculas complexas como a glicose a partir de moléculas simples como água e dióxido de carbono.
Mas na natureza existem também complexos processos desconstrutivos como a fermentação, por exemplo, que transformam as moléculas complexas como as de glicose em moléculas mais simples como dióxido de carbono e álcool (etanol), sendo que neste último composto fica guardada uma energia química significativa, que permite, por exemplo, movimentar os carros em circulação. Os dois processos construtivos e desconstrutivos são igualmente necessários, pois sem eles não existe possibilidade de sustentabilidade da vida no planeta.
De forma análoga nossas sociedades devem também desenvolver os dois tipos de processos nos seus padrões de desenvolvimento. Acontece que até o momento o nosso modelo de desenvolvimento foi baseado somente em processos construtivos, onde a partir de matérias primas existentes na natureza foram criados produtos com diversas características funcionais para o homem, como veículos, computadores e vários outros produtos. Mas esse modelo de desenvolvimento não é sustentável.
Precisamos adicionar a este modelo as atividades desconstrutivas. No Japão as atividades construtivas são de responsabilidade da denominada “indústria arterial” enquanto os processos desconstrutivos são de responsabilidade da denominada “indústria venosa”(3), em analogia com o sistema circulatório dos seres humanos.
Ambas as atividades são de importância econômica e juntas garantem a sustentabilidade de nossa civilização. Precisamos agora desenvolver os processos desconstrutivos, que permitam transformar os produtos em fim de vida útil em matérias primas simples novamente.
Alguns dados permitem observar como as atividades desconstrutivas ou correspondentes à indústria venosa do Japão se encontram ainda pouco explorados nas nossas sociedades. De acordo com dados da UNEP (United Nation Environmental Programme) (4) o índice global de reciclagem de metais como o alumínio e o ferro ainda não supera 60% e para alguns metais preciosos como o ouro e a prata, que são utilizados, por exemplo, na indústria automobilística para a proteção corrosiva de circuitos eletrônicos em sistemas de segurança como airbags, o índice de reciclagem é inferior a 5%. Isto mostra que nem mesmo os metais considerados preciosos estão sendo valorizados no seu ciclo de vida como parte de produtos acabados.
Mas não podemos pensar que o desenvolvimento das atividades desconstrutivas não vai precisar de investimentos. Muito pelo contrário, pois da mesma forma que na natureza os processos desconstrutivos são tão complexos como os construtivos, a obtenção de matérias primas a partir de produtos acabados provenientes da indústria arterial ou construtiva exigirá o desenvolvimento de tecnologias ainda inexistentes, processos de transporte e desmanche de produtos acabados, separação de peças para sua reutilização, análise dos materiais existentes nos diferentes componentes dos produtos acabados, desenvolvimento de processos automatizados para fragmentação e separação de materiais, desenvolvimento de processos metalúrgicos e químicos para a recuperação de matérias primas, enfim uma infinidade de processos que ainda não existem e que contribuirão de forma decisiva para a estruturação de uma nova economia sustentável.
Daniel Castro é professor do CEFET-MG/Departamento de Engenharia
Fonte: CNT

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