quinta-feira, 24 de abril de 2014

Imagina os aeroportos na Copa! :: José Augusto Valente

Nova área de embarque no aeroporto JK (Brasília), inaugurada em 16-4-14. Foto: RafaB / Gabinete Digital – Presidência da República
Nova área de embarque no aeroporto JK (Brasília), inaugurada em 16-4-14. Foto: RafaB / Gabinete Digital – Presidência da República
A imprensa, interessada no sensacionalismo que dá audiência, constrói – ou tenta construir – um cenário catastrófico, de caos generalizado, para o período da Copa 2014, no âmbito da aviação civil. Tenho lido e ouvido, com alguma frequência, a seguinte frase “se está assim agora, imagina na Copa!”.
Do que as pessoas e a imprensa reclamam?
Basicamente, de filas no check-in, atrasos, cancelamentos, demora na esteira das bagagens, pouca informação e preço das passagens.
Se quisermos entender os problemas por que estamos passando e as perspectivas futuras, inclusive na Copa 2014, precisamos definir melhor o contexto da aviação comercial brasileira.
O crescimento da aviação comercial brasileira
Até 2002, a aviação comercial brasileira era destinada à elite e às pessoas que precisavam do avião para exercer suas funções profissionais, seja em empresa privada, seja na administração pública. O baixo crescimento da atividade econômica, até então, criava pouca pressão de demanda no sistema.
Em 1995, o PIB foi R$ 0,7 trilhão e cresceu apenas 1,8 vezes, atingindo R$ 1,3 trilhão em 2002. A partir de 2002, o PIB cresceu 3,7 vezes, de R$ 1,3 trilhão para R$ 4,8 trilhão em 2013. Em 2003, o movimento operacional de passageiros atingiu 71,2 milhões, sendo 61,2 milhões em voos domésticos e 10 milhões no internacional. Em 2013, esses números subiram para 135,7 milhões, sendo 129,1 milhões em voos domésticos e 6,6 milhões no internacional. Como se vê, o número total de passageiros quase dobrou, com maior crescimento em voos domésticos. O número de pousos e decolagens nos aeroportos brasileiros passou de 1,78 milhões, em 2003, para 2,29 milhões em 2013.
O que mostram esses números?
O crescimento do número de passageiros impacta diretamente no atendimento de check-in, no tempo de embarque e desembarque e no tempo de espera das bagagens. Mas, atenção!, não impacta na necessidade de pistas e de fingers. Isso porque toda empresa aérea busca otimizar a quantidade de passageiros por aeronave. O ideal é ter 100% de ocupação e zero de capacidade ociosa. Como observamos nos números acima, esta tendência está ocorrendo.
Vamos considerar apenas os voos domésticos para ficar mais fácil. Enquanto o número de passageiros cresceu 2,1 vezes, o número de pousos e decolagens aumentou 1,3 vezes.
Além da busca pela otimização de passageiros por aeronave, a evolução do equipamento também ajuda na maior eficiência operacional. Os Airbus 319, bem como os Boeing 737-800, permitem levar mais passageiros com menores custos operacionais.
Atrasos e cancelamentos
Outro fato que merece registro, contrariando a imagem que a imprensa tenta fazer da aviação comercial brasileira, diz respeito a atrasos e cancelamentos. Seria cansativo desfilar números, mas eles estão totalmente em sintonia com padrões internacionais de regularidade.
Há que considerar que atrasos e cancelamentos são, geralmente, contratempos eventuais e assimiláveis, no mundo todo, já que o passageiro consegue realizar a sua viagem. Cancelamentos e atrasos, no Brasil, em voos domésticos, não ultrapassam 10% do total de voos. Em geral, quando ocorre mau tempo em Congonhas, dificultando pousos, isso se reflete em toda a malha aeroportuária, visto o caráter de “hub”, que tem esse aeroporto.
Capacidade operacional dos aeroportos brasileiros
No dia a dia, ao longo do ano e exceto em datas especiais, boa parte das viagens, nos principais eixos, são a trabalho ou a negócio, acarretando na necessidade de concentração de movimento em determinados horários, observando-se algum nível de ociosidade da infraestrutura aeroportuária em vários períodos, como madrugada e entre 10h e 16h.
As viagens de turismo, como serão a dos estrangeiros ou mesmo brasileiros, durante a Copa, podem ser feitas em qualquer horário do dia. E é isso que ocorrerá. Além disso, em dias de jogos importantes, especialmente os da seleção brasileira, a quantidade de viagens a trabalho ou a negócio será bastante reduzida.
Isso significa que teremos mais passageiros por motivo da Copa e menos devido a trabalho e negócio. Basta um rearranjo dos voos e todas as necessidades estarão atendidas. Ninguém imagina que aeronaves adicionais serão alugadas apenas para os menos de trinta dias da Copa, a não ser para voos internacionais!
Isso significa que a atual infraestrutura e oferta de voos poderá atender adequadamente toda a demanda.
De todo modo, os principais aeroportos brasileiros, em termos de quantidade de passageiros e pousos e decolagens, passam por obras de ampliação de capacidade e de melhoria da qualidade do atendimento. Os de Brasília, Guarulhos e Campinas estão com obras mais avançadas. No Galeão e Confins, as obras começaram há pouco. Esses cinco estão sob contratos de concessão e não dependem do orçamento público para acelerarem as obras.
Qualidade e atendimento nos aeroportos brasileiros
Para atender a demanda esperada para os jogos, foram ofertados 11,5 milhões de assentos durante o período, dos quais 12% já foram vendidos. A Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear) espera um crescimento de 10% na movimentação durante o evento.
O moderníssimo Píer Sul (foto acima), do Aeroporto de Brasília, foi inaugurado em 16/4 e tem 40 mil metros quadrados da ala sul do aeroporto, com 10 novas pontes de embarque/desembarque. Com 93% das obras prontas e prazo final de entrega para o fim do mês de maio, incluindo a inauguração do Píer Norte, a capacidade desse aeroporto passará de 16 milhões para 21 milhões de passageiros/ano. O Terminal 3 de Guarulhos e o novo terminal de Viracopos estão em fase final e ampliarão muito a capacidade aeroportuária, especialmente de Guarulhos, o mais importante “hub” de voos internacionais. Finalmente, segundo a SAC, o uso de terminais provisórios acontecerá apenas em Fortaleza.
Outros aeroportos, sob gestão exclusiva da Infraero, também devem apresentar acréscimos de capacidade e melhoria dos serviços. Ainda que isso não seja totalmente necessário, ficarão mais bonitos e encantarão os turistas da Copa.
No que diz respeito ao atendimento, o governo federal vai incrementar em 209% o número de funcionários em aeroportos durante a realização da Copa. As vagas nos pátios de estacionamento crescerão 123% no período.
Além disso, 29 aeroportos considerados prioritários serão “coordenados”, o que significa que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e o Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea distribuirão permissões de pouso e decolagem para esses aeroportos a fim de evitar congestionamentos.
Tarifas abusivas?
Finalmente, quanto ao preço das passagens, hoje (22/4) consultei tarifa na Gol, Brasília-Congonhas, na véspera da abertura da Copa, e encontrei passagem a R$ 267,90, voo direto, saindo às 18h44min. Para o jogo Brasil x México, no dia 17/6, em Fortaleza, a tarifa está em R$ 948,90. Fora da Copa, encontra-se tarifa de R$ 307,90. Não sei quanto pagou quem adquiriu a passagem com mais antecedência. De todo modo, nas rotas de poucos voos, é normal aumentar muito a tarifa, em momento de pico de demanda. Lembrar que as tarifas são livres, sem controle algum pelo governo.
Conclusão
Assim, concluo que o “imagina na Copa!” não vai provocar frisson, nem gerar matérias sensacionalistas. O que não quer dizer que a imprensa abrirá mão de buscar tirar leite de pedra, catando atrasos, filas e extravios de malas, fatos totalmente normais em períodos de pico. Afinal, sempre haverá passageiros insatisfeitos, que ficarão bastante motivados de falar mal dos serviços, assim que lhes for disponibilizado um microfone e uma câmera de TV.
José Augusto Valente é Diretor Executivo do Portal T1 de Logística e Transportes.
Publicado no Blog do Zé Dirceu, em 22/4/2014

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