terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Sobre o monotrilho da linha 15 - Prata

Evaristo Almeida*

A cidade de São Paulo tem quase 12 milhões de pessoas, o equivalente a 5,5% dos habitantes do Brasil.

Com essa concentração populacional o Metrô deveria ser o principal meio de transporte motorizado na cidade.

Mas, pela rede pífia de Metrô que a cidade de São Paulo possui apenas 75,5 km, totalmente localizada dentro dos limites do município, os ônibus municipais é que fazem o serviço que deveria estar a cargo do Metrô.

O metrô é um modal estrutural de alta capacidade, que deveria estar transportando a maior parte dos passageiros da Capital.

Nos últimos 21 anos foram construídos apenas 32,1 quilômetros de metrô em São Paulo, o equivalente a 1,52 km ao ano. Muito pouco, a cidade deveria ter pelo menos 300 quilômetros.

Na zona Leste onde mora cerca de 3,5 milhões de pessoas, o transporte é um caos. É uma região populosa com poucos empregos.  Todo dia há um grande deslocamento pendular de pessoas que se dirigem ao centro da cidade, sobrecarregando todos os modais existentes, a linha 3 – Vermelha do Metrô, as linhas 11- Coral e 12 – Safira da CPTM e os principais eixos rodoviários.

A região compreendida pelas subprefeituras de Vila Prudente, Sapopemba, São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaquera, Guainases e Aricanduva, tem uma população aproximada de 2,3 milhões de habitantes. Se juntarmos as cidades próximas, como São Caetano, Santo André e Mauá essa população salta para 3,550 milhões.

Com a chegada da linha 2 - Verde do Metrô na Vila Prudente, todos aguardavam que essa linha seguisse em frente, após o Oratório e chegasse até Cidade Tiradentes.
Por parte da Prefeitura havia um projeto de ligação do Parque D. Pedro II até a Cidade Tiradentes.

O projeto foi para um corredor com 32 km de extensão, dos quais nove elevados, seis terminais, várias estações de transferência e com capacidade para transportar 350 mil passageiros por dia; a mesma capacidade um monotrilho.

Esse que seria o maior corredor da cidade, chegaria  em elevado até a Vila Prudente, com um ramal para Sacomã; essa parte do projeto foi concluída e está funcionando, sobre a Avenida do Estado e depois seguiria pela Avenida  Professor Luiz de Anhaia Mello, Avenida Sapopemba, Avenida Ragueb chohfi, Estrada do Iguatemi e Cidade Tiradentes.

Esse corredor reduziria pela metade o tempo de viagem de 140 minutos para 70 minutos.

A obra previa ainda uma extensa intervenção urbana desde o Parque D. Pedro II até a Cidade Tiradentes, requalificando e melhorando o entorno do corredor.
O custo atualizado pela IGPM do Corredor Parque Dom Pedro II à Cidade Tiradentes seria de R$ 2,2 bilhões.

O governo do Estado anunciou em 2009 que a linha 2 – Verde não iria seguir em frente e sim fazer uma curva em direção a Estação da Penha, na linha 3 – Vermelha.

Como solução para a população da Cidade Tiradentes, foi apresentado um novo modal de transporte o monotrilho. No Brasil a única experiência com monotrilho foi em Poços de Caldas, uma linha para fins turísticos que não vingou.

E anunciaram com tanta ênfase que prometeram entregar o trecho Vila Prudente – Oratório até 2010, Oratório – São Mateus no segundo semestre de 2011 e finalmente chegar a Cidade Tiradentes no segundo semestre de 2012, com 24,5 quilômetros de vias, 17 estações, dois pátios e 54 trens.

Esse anúncio pegou todo mundo de surpresa, afinal o que era monotrilho?
Monotrilho é um modal de média capacidade, sou seja, transporta no máximo 20 mil passageiros por hora sentido, que se locomove num trilho único, na verdade uma viga de concreto que fica a 15 metros do chão. O carro do monotrilho é sustentado e equilibrado sobre pneus.

Os movimentos sociais argumentaram com o governo estadual que esse modal não era o adequado para a região que apresenta uma alta demanda por transporte público e necessitava de um sistema de alta capacidade, ou seja, capaz de transportar 80 mil passageiros por hora sentido.

Nas audiências públicas que foram realizadas na região, os movimentos sociais disseram que o ideal era o governo estadual levar o Metrô até a Cidade Tiradentes, ou pelo menos avançar até São Mateus com esse modal.

Somente o Metrô teria capacidade de atender com segurança, qualidade e conforto a demanda que naquela altura já passava dos 40 mil passageiros por hora sentido.
Outra constatação dos movimentos sociais era que o modal não apresentava segurança para os passageiros e em vários países o monotrilho tinha sido abandonado, como em Sidney, na Austrália, ou são fracassos como em Dubai, que transporta menos de cinco mil usuários por dia.

O governo estadual propôs então criar um novo modal o monotrilho de alta capacidade que não existe em lugar nenhum, com capacidade para transportar 48 mil passageiros por hora sentido ou 500 mil diariamente. O argumento era que o sistema seria mais rápido de fazer e mais barato do que o Metrô.

O orçamento inicial era que o monotrilho iria custar R$ 2,3 bilhões ou R$ 100 milhões o quilômetro, mas na primeira licitação deu vazia, nenhuma empresa se interessou.
O governo estadual refez o edital, aumentou o valor para R$ 2,9 bilhões e tirou as estações do projeto, que foram licitadas separadamente.

Como a Estação da Vila Prudente da linha 2 - Verde Metrô estará sobrecarregada com a ligação com Guarulhos, o projeto do monotrilho foi estendido até a Estação Ipiranga da linha 10 – Turquesa da CPTM.

Atualmente o projeto do monotrilho está orçado em R$ 7,1 bilhões, segundo dados divulgados pelo governo, ou R$ 4,8 bilhões acima do previsto inicialmente.
O contrato foi assinado em 2010, com previsão de chegar a São Mateus em 2014 e na Cidade Tiradentes em 2016.

Estamos em novembro de 2015 e por enquanto somente 38,9% das obras foram feitas, segundo dados do governo estadual, com um pequeno trecho de 2,9 quilômetros funcionando parcialmente, entre Vila Prudente e Oratório, transportando 12 mil passageiros diariamente.

O monotrilho está em baixa no Brasil, várias cidades como Manaus e Niterói que pleitearam a construção do modal, desistiram por causa do custo e da complexidade operacional.

Outro que se colocou contra o sistema foi o secretário Dario Rais Lopes, em oitiva na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, no dia 23/10/2015. Ele disse que a tecnologia ainda não está assimilada no país e teme por esqueletos que podem ficar pela cidade, com desperdício de dinheiro público.

 Há várias irregularidades na construção de monotrilhos em São Paulo, como a licitação da linha 17 – Ouro, conforme denunciado pelo Tribunal de Contas da União, sem projeto básico e orçamento, conforme prega a legislação.

Na linha 15 – Prata, os projetos foram mal elaborados, o que está aumentado o custo da obra e o atraso. Isso ficou muito claro quando “encontraram” o Córrego da Mooca, que está tendo de ser desviado para a construção da linha.

Claramente as obras de monotrilho em São Paulo vão de mal a pior, na linha 18 – Bronze que fará a ligação com São Bernardo do Campo, as obras não começaram porque o governo estadual não tem os recursos para a desapropriação e a linha que deveria entrar em operação em 2018, ficará agora para 2020.

No dia 27 de agosto, outra surpresa, foi dito que o secretário Clodoaldo Pelissoni, no jornal SPTV, congelou a linha 15 – Prata até Iguatemi e que o monotrilho não chegará mais a Cidade Tiradentes, não construindo as estações de Jequiriçá, Jacu-Pêssego, Érico Semer, Marcio Beck, Cidade Tiradentes e Hospital Cidade Tiradentes, além do trecho até  a Estação Ipiranga.

Assim como na linha 17 – Ouro, que foi reduzida para ligar apenas o Aeroporto de Congonhas à Estação Morumbi, da linha 9 – Esmeralda da CPTM, reduzindo em 10 quilômetros o projeto inicial, e não atendendo mais os moradores de Paraisópolis. Essa linha deveria ter sido inaugurada em 2014 e talvez o seja, parcialmente como divulgado, em 2017.

No caso da linha 15 – Prata há ainda a suspeita de corrupção, pois o doleiro Alberto Yousseff, pivô da operação Lava Jato, citou desvio de R$ 7,9 milhões em abril de 2011.

A opção pelo modal monotrilho até Cidade Tiradentes, claramente foi um grande erro do governo estadual, escolhendo um sistema que ainda não existe no mundo inteiro e cujo projeto pode não atender o que foi prometido.

A demanda estimada quando foi tomada a decisão de 500 mil passageiros por dia, em outros países, justifica a construção de uma linha de metrô. É o que transporta a maioria das linhas construídas no mundo.

E mesmo se a linha estivesse pronta hoje já estaria sobrecarregada, pois a estimativa é a demanda esteja em 55 mil passageiros por hora sentido.

Os argumentos de custo menor e mais rápido para se construir como foi anunciado não se justificam mais.

Quanto aos custos, ninguém sabe ainda quanto efetivamente custará essa linha, pois no decorrer do contrato tem sido feito aditivos e novas obras, como o desvio do córrego da Mooca, que a encarecerá muito mais do que foi anunciado.

Um trem de metrô pode transportar dois mil passageiros, enquanto a composição do monotrilho da linha 15 – Prata, a capacidade é mil passageiros, ou seja, a metade.
Sem falar que a Companhia do Metropolitano de São Paulo domina a tecnologia e a operação do modal.

Se a obra fosse subterrânea não haveria impacto urbano e aceleraria o desenvolvimento das regiões por onde passaria.

Um dos argumentos apresentados pelos movimentos sociais era que na periferia há restrição do governo estadual em construir metrô, dizendo que é muito caro, o que não ocorre em bairros em outros, o que ficou comprovado com a extensão da linha 2 – Verde até Guarulhos, que será totalmente subterrânea.

Resta saber agora qual a nova promessa que o governo estadual vai oferecer à população da zona Leste.


* Evaristo Almeida - Mestre em Economia Política - PUC-SP, Assessor de Transportes e Mobilidade Urbana da Bancada do PT na ALESP, Coordenador do Setorial Nacional de Transportes do PT

Uma versão desse artigo foi publicado na Folha da Vila Prudente

http://issuu.com/folhavp/docs/1212_pdf



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